Uma nova ordem de calmaria após a tempestade

O setor automotivo em 2014

Merluzzi - MA8 Management Consulting Group
Merluzzi (MA8)

O setor automotivo vendeu 3,7 milhões de veículos no mercado brasileiro em 2013. Se esse mercado em 2014 cair 10% em volume, mesmo assim o ano representará o quinto melhor resultado da história para o setor no País.

Atualmente as previsões mais pessimistas são para uma queda de 8% a 10% em 2014 e se isso se confirmar (como preveem as entidades do setor), o resultado atingirá 3,4 milhões de unidades vendidas no varejo, algo relativamente próximo ao ano de 2010, que foi o quarto melhor resultado da história. Nada mal.

Vejo na mídia um setor procurando culpados na economia ou na condução econômica pelo enfraquecimento das vendas neste primeiro semestre. Restrição de crédito, retração do PIB, impostos e a Copa do Mundo que veio para nos envergonhar e atrapalhar a economia nos meses de junho e julho.  Com relação aos efeitos nefastos da Copa do Mundo na economia eu estou de acordo, mas quanto aos demais vilões elencados, tenho outra opinião.

Um setor que não consegue se ajustar a uma queda pequena como essa – 8% que mesmo assim resulta em volumes próximos de recentes recordes tão celebrados – não pode culpar o Governo, impostos ou disponibilidade de crédito como causador de uma catástrofe. A mim, parece muito mais um problema de gestão do que de efeitos terceiros. Não é motivo para desespero afinal, nem todos os fabricantes do setor no Brasil estão buscando culpar o mesmo vilão.

O mercado brasileiro de automóveis e comerciais leves é um entre os mais importantes do mundo, que ainda carece de plena abertura e competitividade. Em um modelo que a médio prazo dificilmente se sustentará, apenas sete marcas detém 85% do mercado enquanto outras trinta marcas disputam os 15% restantes. É de se esperar que as marcas dominantes percam mercado em um cenário futuro. É só uma questão de tempo. As fontes de “socorro” no País não conseguirão sustentar esta situação de divisão mercadológica.

No primeiro semestre de 2014 apenas nove marcas perderam volume no mercado local. Exatamente as marcas dominantes e isso não é coincidência.

Há várias incoerências de desempenho e eficiência quando analisamos os dados reportados pelo próprio setor nos últimos onze anos. O ano de 2003 representou o primeiro ano de um governo que oferecia grandes incertezas a todos os setores da economia. Demissões, explosão do câmbio e suspensão de investimentos foram a consequência imediata. Felizmente, o novo governo eleito em 2002 manteve o que estava dando certo na condução econômica do País e que havia sido implementado no governo anterior.  Tomo o ano de 2003 como base para o crescimento e comparo com 2013 (um ciclo de onze anos):

  • As vendas totais no mercado cresceram 2,6 vezes (164%) e o mercado automotivo de 1.428.000 veículos em 2003 atingiu 3.767.000 veículos em 2013
  • O faturamento anual no setor dobrou, de US$ 42 bilhões para US$ 83 bilhões
  • O número de empregos diretos no setor cresceu 1,7 vezes, passando de 79 mil para 130 mil empregados
  • As vendas por empregado cresceram 61% enquanto o faturamento do setor por empregado cresceu apenas 20%.

Apesar da tendência para uma conclusão simplista, em que o aumento de vendas ocorreu em detrimento de preços e margens, bem como do aumento do mix de veículos populares, o fator de exploração do pós-venda e absorção de serviços (setor em que as margens de peças e componentes vão sempre muito bem), nunca é levado em consideração. Bem, nesses últimos dez anos a frota circulante doméstica cresceu exponencialmente e com ela, as oportunidades no setor de melhorar sua eficiência e desempenho em absorção de pós-venda. Em algumas empresas do setor automotivo (montadoras e grupos concessionários) essa área representa quase toda a sua saúde financeira.

Enquanto o setor automotivo teve um tempo razoável para se ajustar e fazer planos contingenciais, a eficiência e a visão do próprio umbigo tem sido talvez substituídas pelo socorro rápido e fácil através de outras fontes“.

Nem todas as marcas estão reclamando da queda de mercado. Pelo contrário, algumas seguem seu ritmo de crescimento, otimização de estrutura, eficiência de custos e conquista gradativa de cada décimo percentual de market share.  Chegará o momento em que algumas desculpas não terão mais como serem aceitas e nesse instante, teremos ultrapassado a fronteira da nova ordem de domínio e distribuição de veículos no mercado brasileiro.

Faço referência ao artigo da revista IstoÉ Dinheiro assinado pelo excelente jornalista de economia, Luis Artur Nogueira, com o título “A Tempestade Perfeita” e para o qual segue o link:

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20140704/tempestade-perfeita/169105.shtml

Como escrevi ontem motivado pela imagem que ilustrou seu artigo, “As vezes o que parece uma tempestade é na realidade, problema com as palhetas do limpador de para-brisas que atrapalha a visibilidade durante uma chuvinha“.

Visite o novo blog do PensamentoCorporativo em: http://www.pensamentocorporativo.com

2 Comments

  1. As comparações não deixam mentir !! Será que o problema está nos subsídios a alguns segmentos e falta de subsídios a outros?

    1. Marta, acho que o problema é a cultura da dependência de subsídios para ser competitivo. O setor precisa buscar competitividade pelas próprias pernas e investir na cadeia integrada de suprimento, treinamento, financiamento e principalmente a distribuição. O setor atacadista no Brasil tem mais integração nessa cadeia do que o setor automotivo. Se você ler as reclamações da Fenabrave nos últimos anos contra atitudes e descaso das montadoras, verá que pouca coisa mudou e a cadeia de distribuição continua sendo tratada como inimiga do seu principal fornecedor.

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