Será que há espaço para todos? Sim, mas…

… a briga vai ser épica

master final

 

Que o Brasil é um mercado importante para qualquer marca com presença mundial, não se discute. Além da força do mercado interno que lhe confere a quarta posição no mundo, o País representa 53% do mercado automotivo na América Latina – incluindo o México. Com quatro vezes o tamanho da Argentina e três vezes o mercado interno mexicano, o Brasil continua sendo muito atrativo para novas marcas e para novas fábricas, apesar de que nos esforçamos para dificultar a vida de quem chega ou quem quer entrar aqui.

Não critico o protecionismo brasileiro. O decreto 7.819/2012 que regulamentou o programa Inovar-Auto pode ter algumas falhas, mas é um programa sensato que merece todo meu respeito. Motiva investidores a construir no Brasil e quanto mais rápido a empresa iniciar a produção local, maiores os incentivos beneficiando montadoras e fornecedores que produzem no País.

Desculpe-me a União Europeia, mas o seu recente questionamento na OMC contra os benefícios tributários do programa Inovar-Auto brasileiro, é um equívoco.

O setor automotivo no Brasil representa mais de 23% do PIB industrial ou se preferir, mais de 4% do PIB total do País. É um setor tão estratégico para nós quanto o Petróleo ou a proteção de nossas fronteiras. O modelo que Juscelino implantou nos anos 50, desenvolvendo o Brasil sobre rodas e dependente das estradas de rodagem, certo ou errado é o modal existente hoje e ainda levará muitas décadas para ser mudado. Graças a ele, bandeiras sindicais hasteadas sobre o setor automotivo permitiram que líderes emergissem e até chegassem ao controle do País.

Deixando o nacionalismo de lado e olhando para nossas características, as novas marcas de veículos que chegam ao Brasil terão que enfrentar os leões dominantes, se quiserem conquistar cada décimo percentual de participação no setor. No mercado de automóveis e comerciais leves apenas dez marcas dominam 96% de todo o mercado, sendo que as quatro primeiras – as tradicionais – detêm dois terços do mercado. Sobram apenas 4% – sim, quatro por cento – para as outras marcas de veículos que estão presentes no Brasil, produzindo ou importando, sendo que essas “outras” são quase quarenta marcas competindo em uma fatia tão pequena.

É lógico que esse modelo de divisão do bolo não vai se sustentar por muito tempo e é aí que a briga será épica, afinal, cada ponto percentual de participação no mercado brasileiro de automóveis e comerciais leves vale em média cerca de US$ 500 milhões em faturamento bruto para as montadoras, por ano, sem considerar a cadeia de distribuição e de financiamento.

Enquanto o faturamento total do setor cresceu 98% nos últimos quinze anos, o faturamento por veículo produzido caiu 25% no mesmo período, em dólar.

Em um cenário no qual as marcas dominantes enfrentam aumento de custos, redução de margens e necessidade de sustentar a estrutura de negócios local – isso inclui suas redes de concessionárias – as outras trinta ou quarenta marcas que disputam a menor fatia do mercado encontrarão barreiras bélicas fixadas pelas marcas presentes no Brasil há várias décadas, incluindo a maturidade e o conhecimento do mercado, dos clientes e do ambiente local para fazer negócios.

As novas marcas de carros e comerciais leves terão que construir um business case crível, sem as artimanhas do “papel que aceita tudo”. Margens elevadas que na prática não existem e vendas de volumes que resultam em participações irreais no mercado não sustentarão planos de investimentos inconsistentes. Ou seja, como se diz nos bastidores da indústria, “a conta vai ter que fechar, só não se sabe como”.

A promessa aos investidores de retornos teóricos para justificar projetos aprovados na matriz, provavelmente derramará adrenalina, muito suor e até umas gotinhas de sangue nas áreas comerciais, afinal, geralmente quem paga toda conta é a área de vendas. 

(*) – Orlando Merluzzi atua no setor automotivo há trinta anos. É consultor de empresas e CEO da MA8 Management Consulting Group no Brasil.

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