Por que o carro no Brasil custa caro? O que ninguém fala.

Foto Orlando Merluzzi MA8-MCG PB - 1 (2)As publicações sobre esse tema geralmente colocam as montadoras como vilãs praticantes de margens de lucro abusivas. A realidade é diferente e para fazer essa análise de modo independente e sem emoção ideológica é preciso também conhecer o lado interno das montadoras, algo que nem todos que opinam sobre o assunto conhecem.

A razão dos veículos produzidos no Brasil custarem o dobro do que em outros países não se justifica apenas com a carga tributária e com as margens de lucro das fábricas. Afirmo que as margens das montadoras não são tão elevadas assim e há no Brasil montadoras que perderam muito dinheiro nos últimos anos. É certo que algumas ganharam muito dinheiro também.

A carga tributária por aqui está entre 34% e 38% do preço final do veículo. Países europeus cobram em média a metade desse valor (14% a 18%). No Japão é 9% e nos EUA chega a 7%, em média. Mas tem muito mais coisas que precisam ser consideradas nessa análise e que prefiro chamar de “realidade local” e não de “custo Brasil”.

A mão de obra para a indústria custa em média 2,5 vezes o salário que o funcionário recebe e não são somente os encargos sociais e benefícios que compõe esse custo extra. A necessidade de treinamento e desenvolvimento de competências no Brasil custa mais caro do que em outros países.

O nível de educação básica no País é baixo, comparado com países desenvolvidos ou até em desenvolvimento. Isso não é um problema somente nosso e geralmente ocorre nos países latino-americanos. Essa questão implica diretamente na produtividade. Só a Índia e a Espanha possuem produtividade menor do que a nossa – não confundir produtividade com volume de produção. A baixa produtividade resulta em aumento de custo da produção.

Um funcionário que recebe no Brasil R$ 5.000 / mês custa para a montadora R$ 12.500 / mês. O fornecedor também tem esse custo extra. A empresa de limpeza, de segurança, de transporte, alimentação e outros serviços carregam também esses custos, o que por sua vez será naturalmente incorporado nos custos da operação da montadora.

O frete que leva o veículo da fábrica para as concessionárias custa mais caro do que em países desenvolvidos. Quem paga o frete é o cliente final.

Adicione-se a isso os elevados custos logísticos e também as taxas cartoriais.

Há alguns casos emblemáticos de veículos produzidos aqui e exportados para países em que são vendidos mais barato do que o preço de varejo no Brasil. Não demorou para que alguns setores da mídia apontassem a ganância de lucro no Brasil, em benefício das vendas mais baratas para países como México e Argentina.

Qualquer gestor com curso básico de administração sabe o que significa venda de oportunidade com contribuição marginal. Esses casos ainda são suportados por incentivos fiscais e tributários no país comprador e exportador, além dos efeitos de variação cambial que incidem diferentemente em cada país e acentuam-se quando a montadora possui operações nos dois países, permitindo compensações bilaterais. Trata-se de gestão econômica. Essa análise complexa não é tão simples quanto parece e requer conhecimento das operações. É leviano afirmar que as montadoras vendem mais barato para o exterior e aumentam o preço no mercado interno.

O investimento realizado no Brasil precisa dar retorno aos investidores, senão, eles vão investir em outros países. A montadora ou os fornecedores estrangeiros que investem aqui não são entidades beneficentes. Todos estão aqui para ganhar dinheiro e justificar para seus acionistas o investimento que foi feito no Brasil e cada vez mais essa escolha vai precisar de novas justificativas.

As taxas de retorno sobre investimentos no Brasil devem ser maiores do que as taxas de retorno em locais estáveis como EUA, Europa e Ásia, simplesmente porque no Brasil o custo anual do capital está bem acima de 12% enquanto em países estáveis, com “rating” de investimento saudável e com inflação abaixo de 4% ao ano, a taxa de retorno esperada é bem menor do que isso, geralmente a metade ou até menos. Para taxas de retornos maiores as margens têm que ser maiores, obrigatoriamente. Não há milagre.

Tudo isso vai para o preço do veículo.

O Brasil nos últimos 40 anos não adotou uma política que incentivasse o desenvolvimento da indústria de alta tecnologia ou transformação com grande valor agregado no produto final. Por enquanto seguimos sendo exportadores de insumos básicos e commodities e graças a indústria automobilística o Brasil pode se destacar dos demais países latino-americanos. Porém, agora perdemos a posição para o México, que foi mais competente em fazer acordos bilaterais com vários países do mundo, enquanto o Brasil perde tempo com acordos comerciais que pouco agregam as nossas balanças.

É por isso tudo que o carro custa tão caro no Brasil. Qualquer negócio estruturado de prestação de serviços no País possui margens muito maiores do que as margens praticadas pela indústria automobilística. Bancos, construção civil, padarias, restaurantes, indústria de bebidas, indústria de cigarros, indústria do entretenimento, todos esses setores praticam margens de lucro muito mais elevadas do que as montadoras, mas atacá-los “não dá Ibope” como atacar as montadoras. 

Vamos seguir torcendo para que os novos investimentos desistam de tomar a direção de outros países e retornem para o Brasil. Neste mês de abril de 2015 o Brasil acaba de perder mais uma montadora para o México.

Orlando Merluzzi – Abril/2015

7 Comments

  1. Você esta correto em tudo o que disse. Só acho a diferença extremamente gigante. Outro dia ouvi uma matéria do Joel Leite na Radio Alfa FM e ele abordou como exemplo, o Honda City (fabricado no Brasil), que no Brasil, para brasileiros, na ocasião custava R$ 54.000,00 e o mesmo carro, sem nenhuma modificação, colocado no México custava para os Mexicanos o equivalente a R$ 18.000,00. A partir dai ele fez uma série de elocubrações, considerando num pseudo cálculo que a Honda Brasil não estava exportando o carro de graça, mas sim ganhando para isso. No mesmo cenário a Honda México também estaria ganhando para disponibilizar o produto para a sua Rede de Distribuição local e, por sua vez, a Concessionária Honda Mexicana também tendo sua margem de lucro preservada na sua comercialização. Fora os ganhos preservados da(s) industrias e Rede envolvida, ainda existem as taxas de exportação pagas ao Governo Brasileiro e as taxas de importação/mexicanização do produto recolhidas para o Governo Mexicano. Consolidando tudo isso e partindo de um preço de venda ao consumidor mexicano de R$ 18.000,00 o custo industrial de um Honda City seria alguma coisa entre R$ 8.000,00 e R$ 9.000,00 para a Honda Brasil. Esse custo entende-se que não é diferente para o mesmo carro colocado a venda no mercado Brasileiro. Portanto um carro que custa para ser produzido R$ 9.000,00 é vendido pela bagatela de R$ 54.000,00 no Brasil. a desproporção é muito grande, não?

    1. Sergio, essa análise não é simples e somente quem conhece o lado de dentro das montadoras consegue entender. Exchange rate, compensação bi-lateral de trading balance, ROI e IRR de um projeto de investimento são coisas que poucos jornalistas conhecem. Os números reais não são esses e você também conhece o outro lado. Nesse mês perdemos mais uma montadora para o México. É com isso que a midia deveria se preocupar. Os investimentos de FDI estão tomando outros endereços. Abs.

  2. O seu comentário sobre a produtividade na Espanha e errado, e por muito, e ainda mais se falamos do setor automotivo.
    Espanha é agora segundo produtor de carros na Europa, atingindo um volume de 2,4 millioes em 2014, com um volume para exportação de mais de 2 millioes. As grandes fabricas de vaias montadoras estão no topo da produtividade de cada uma delas, isso acontece pelo menos com Renault, PSA, Ford, Opel, com capacidades nas fabricas espanholas acima de 400 mil carros, e a Nissan. Todas elas no ultimo ano tem recebido investimentos para fabricar carros novos, o ultimo caso com a recente vista de Mark Fields CEO da Ford Motor Company no passado mês de março para comemorar o lançamento do Mondeo como produto local. Como país como um todo, segundo estatísticas do World Economic Forum, Espanha esta colocada no lugar 35 do mundo, Brasil no 57 e a India no 71.

      1. Orlando, explique estes conceitos em seu ponto de vista. Realmente a Espanha não é um case de sucesso, tampouco de fracasso, ela está no meio do quadro e os baixos salários do sul da Europa acabam chamando investimentos que antes estariam no leste ou na Alemanha. Não ficou claro. abs

      2. Marcos, não é ponto de vista exclusivo meu. A Espanha está longe de ser um case de fracasso e também tenho dúvidas quanto a questão dos baixos salários. A qualidade é competitiva, os custos nem tanto. A produtividade espanhola em termos de produção x homem/hr disponível x capacidade instalada x custo variável, não é das melhores, se comparadas com os países entre os 10 maiores produtores mundiais de veículos. Nesse cálculo deve-se considerar MDO Direta, Indireta, Improdutivo e também os aspectos culturais, o que na MA8 entra na equação de dessazonalização. Os KPIs alemães do setor deixariam os espanhóis estressados, mas isso não é demérito. Um abraço, OM

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