Quem é o culpado pelo preço do carro produzido no Brasil ?

Por que um veículo produzido aqui custa tão caro? A caixa-preta.

CUSTO DO CARRO NO BRASIL

Em abril de 2015 publiquei artigo para explicar as razões pelas quais o carro produzido no Brasil custa tão caro, se comparado com outros mercados. Sem entrar em detalhes técnicos para este curto espaço, o artigo decorre de nossos estudos sobre o tema. Além de prestar esclarecimentos, quero tentar acalmar os ânimos de leitores um pouco mais exaltados em relação a essa questão, pois o assunto costuma resultar em discussões acaloradas e passionais. Ao final deste novo texto deixarei um link para acesso ao artigo anterior. 

Quero inicialmente fazer três afirmações objetivas, sobre as quais falarei adiante.  

  1. As montadoras não são vilãs e não praticam margens de lucro abusivas.
  2. A cadeia de impostos não é o único fator que faz o carro brasileiro custar tão caro.
  3. As redes de concessionárias não praticam margens de lucro extorsivas.

A razão dos veículos produzidos no Brasil custarem o dobro do que em outros países não se justifica apenas com a carga tributária e margens de lucro. Há uma enorme sequência de custos e ineficiência no processo de produção de um veículo no Brasil, desde os fornecedores, passando pelas operações de manufatura, logística e distribuição, que adicionam bons índices percentuais na composição do preço final do veículo, com características exclusivamente brasileiras e que nem sempre são encontradas na mesma proporção em outros países.

As montadoras ganharam muito dinheiro no Brasil e por várias vezes perderam muito dinheiro também. É importante lembrar que essas empresas não são entidades beneficentes e seus investidores esperam retorno adequado sobre o investimento realizado.

Todos estão aqui para ganhar dinheiro e a decisão de investir no Brasil, no México ou na Turquia não é tomada porque nosso País possui as mais belas praias. Em primeiro lugar, busca-se o tamanho do mercado local e regional e em seguida, a estabilidade e as projeções econômicas para o País e para a região.

É nesse ponto que surge algo bem característico da situação local, a complexidade tributária e burocrática, além das taxas de retorno que carregam os elementos de risco sobre os investimentos. 

O retorno esperado para investimentos no Brasil – quer os idealistas concordem ou não, precisa ser maior do que as taxas em locais estáveis e menos arriscados como EUA, Europa e Ásia, principalmente porque aqui o custo do capital chega a ser cinco vezes maior do que em alguns países, sem mencionar as taxas de inflação. Não há fórmula milagrosa e a justificativa para o investimento só poderá vir da relação “margem x volume”, pois o lucro é decorrente de um bom processo de gestão e isso é uma outra discussão. Margens elevadas nem sempre são indecentes ou imorais e podem não significar lucro no final do exercício. Não estou sugerindo que as montadoras possuem margens elevadas, mas sim, margens teóricas adequadas a toda essa realidade.

Uma nova fábrica pode custar um bilhão de dólares. Desenvolver um novo veículo para o Brasil pode custar quinhentos milhões. Para entender sobre a expectativa de retorno no tempo em um investimento desse porte, são necessários conceitos adicionais aos da matemática financeira e antes que alguém aponte as renúncias fiscais como benevolência governamental para a construção de uma nova fábrica em algum estado, deve se recordar que renúncia de zero é zero, ou seja, se a operação não existir não há sobre o que renunciar. Também devo esclarecer que na maioria dos casos vigentes não houve renúncia fiscal, mas sim postergação de impostos a serem cobrados posteriormente e quando houve algum tipo de benefício fiscal, ocorreu em troca de expectativas sociais locais. Se elas se realizaram ou não, é também um outro assunto.

As alíquotas de impostos no Brasil que incidem sobre o veículo produzido podem variar de 48% até 55%, mas na prática representam algo entre 32% e 37% do preço final do veículo ao consumidor. Países europeus cobram em média a metade desse valor (14% a 18%) e outros países como Japão e EUA até um-terço disso, mas não é tão simples fazer tal comparação, uma vez que o modo de incidência dessas alíquotas em outros países não segue uma regra comum comparável à nossa.

Mas atenção, tem muito mais coisas que precisam ser consideradas nessa análise e que prefiro chamar de “realidade local” e não de “custo Brasil”.

Embora a mão-de-obra direta represente uma parcela pequena do custo de produção do veículo, não são somente encargos sociais e benefícios que compõe esse custo. A necessidade de treinamento e desenvolvimento de competências no Brasil custa mais caro, pois o nível de educação básica local é baixo se comparado com países desenvolvidos. Isso não é um problema somente nosso e ocorre também em outros países latino-americanos. Essa questão implica diretamente na produtividade, que, quando baixa, faz aumentar os custos da produção e da qualidade. 

Energia, combustível e outros insumos são mais caros no Brasil. Os fornecedores das montadoras também operam nesse mesmo ambiente. A empresa de limpeza, de segurança, de transporte, alimentação, manutenção e outros serviços, carregam todos esses custos e ineficiência, o que por sua vez será naturalmente incorporado nos custos de operação da montadora e vai para o preço veículo. 

O frete que leva o veículo da fábrica para as concessionárias custa mais caro do que em países desenvolvidos e quem paga o frete é o cliente final. Adicione-se a isso os elevadíssimos custos logísticos e também as taxas cartoriais.

Há outros elementos que impactam na formação do preço, decorrentes da ineficiência operacional e do custo do capital. Embora academicamente questionável, provisões para despesas variáveis, cortesia comercial e manutenção de estoques indesejados não costumam ser esquecidos e na hora de formar preço nem sempre os conceitos acadêmicos são preservados, afinal, as condições regionais são cíclicas na arte de apresentarem surpresas aos gestores. Na dúvida, há que se prevenir. Mesmo que as provisões para “garantia” sejam teoricamente responsabilidade do fornecedor, trata-se de um processo de gestão embutido no preço das peças e componentes. Vários fatores afetam a garantia e a qualidade, desde a questão educacional até a falta de investimentos em tecnologia que, para serem realizados por investidores, levam em consideração o que expus anteriormente.

Tudo vai para o preço final do veículo e sobre tudo isso, incidem os impostos em cadeia. É aqui que está a grande caixa preta do setor e nunca espere que alguém um dia consiga abri-la, porque cada caso é um caso diferente em cada marca e não há um modelo cartesiano que possa explicar. É por isso que toda culpa recai somente sobre a cadeia de impostos. Na realidade, ela é parcialmente culpada.

Na ponta final estão as redes de concessionárias, espremidas entre a pressão das montadoras para cumprirem suas cotas e a pressão do consumidor pela redução de preços. Em recente pesquisa, identificamos que a rentabilidade média das concessionárias no Brasil nos últimos dois anos ficou abaixo de 0,7% (não confundir rentabilidade com margem), exceção feita à algumas marcas premium, incluindo as japonesas. Quem em sã consciência investiria em um negócio com larga amplitude de riscos e cobranças, para ter uma rentabilidade final dessa ordem? 

Ao buscar entendimento sobre toda essa situação, alguns analistas tentam comparar valores absolutos em moeda convertida, o que constitui equívoco. O que deve ser comparado são os índices percentuais e não os valores absolutos, pois ao fazê-lo, convertendo valores de outros países e comparando com valores no Brasil convertidos em dólares, estarão comparando banana com jabuticaba. A volatilidade cambial não permite tal comparação em valores absolutos, a não ser em momentos isolados. 

Quanto aos casos emblemáticos de veículos produzidos aqui e exportados para países em que são vendidos mais barato do que o preço de varejo no Brasil, dediquei um bom espaço para tal explicação em meu artigo anterior, esclarecendo por que tal comparação não se aplica.

É por isso tudo que o carro custa tão caro no Brasil e não se muda essa matriz de custos, ineficiência e cadeia de impostos “sobrepostos”, da noite para o dia. Ainda vai levar um bom tempo para atingirmos os níveis de países desenvolvidos e estáveis quanto a essa questão. 

Novamente vou repetir o que já disse em outra oportunidade. Qualquer negócio estruturado de prestação de serviços no país, pela própria característica, possui margem de lucro muito maior do que as praticadas pela indústria automobilística. Bancos, construção civil, padarias, restaurantes, indústria de bebidas, indústria do entretenimento, publicidade, todos com margens muito mais elevadas do que as montadoras, mas atacá-los não gera comoção nacional, talvez porque o carro novo seja o maior objeto de desejo das pessoas, maior até do que o sonho da casa própria. 

Orlando Merluzzi, 11/02/2016  


Faça download deste artigo em PDF: Quem é o culpado pelo preço do Carro no Brasil


Acesse o artigo anterior sobre o tema, no link: Por que o carro no Brasil custa caro. O que ninguém fala.

1 Comment

  1. O senhor deve ser relações publicas das montadoras. Como defender o abuso que fazem aqui? Claro que não são vilãs. São só mais um entre tantos vilões, como tudo no Brasil. O Brasil é o vilão. Vilão de si mesmo. Não há desculpa intelectual, matemática, administrativa ou científica aplicada e profunda e/ou fatores estruturais que justifiquem o preço ser tão estrondosamente desigual. Desigual até que em países vizinhos como Uruguai e Argentina. Ok aqui tem custos e riscos diferenciados. Mas aqui e o lugar com a maior desigualdade de renda e de salarios do mundo ou um dos piores. Então onde está o custo tão grande que as pobrezinhas das oligarquias tem que suportar? Só se for o custo que elas tem que distribuir com seus `”amiguinhos” oligarcas e burocratas das mais diferentes esferas, principalmente políticas para poderem lucrarem em paz, Não é ideologia, é inteligencia e atividade que o brasileiro está aprendendo a ter pois não aguenta mais ser explorado perversamente porque ele proprio consente e permite. A razão dos carrros custarem tanto no Brasil o senhor mesmo disse; “aqui o carro é objeto de desejo antes da casa própria”. e de status para o pobre que quer parecer com o rico. O explorado deseja ser o explorador.

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