ROTA 2030 pode nascer ultrapassado para o setor automotivo brasileiro

Quando o governo publicou, em outubro de 2012, o decreto que regulamentou o Inovar-Auto, o mercado anual de carros e comerciais leves no Brasil superava 3,6 milhões de unidades, um dólar valia R$ 2,04, estávamos sendo invadidos por carros importados e os chineses eram uma ameaça.

O Inovar-Auto veio com uma proposta muito boa e necessária, apesar dos chiliques da OMC (Organização Mundial do Comércio). Dizia o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior): “Queremos criar condições de competitividade e incentivar as empresas a fabricarem carros mais econômicos e seguros, investir na cadeia de fornecedores e em engenharia, tecnologia industrial, pesquisa e desenvolvimento. Em troca, empresas que produzem veículos no Brasil, as que comercializam e também aquelas que apresentarem projetos de investimento terão um crédito presumido de IPI de até 30 pontos percentuais”.

O Inovar-Auto era um projeto inteligente, que beneficiava quem se comprometesse a investir no Brasil e aos newcomers da época, dava dois anos de “respiro” para importarem um certo volume de veículos sem o IPI. Uma justa estratégia para que a marca construísse a fábrica e desenvolvesse a rede de concessionários, assim, quando a fábrica entrasse em operação, a rede já estaria no jogo.

O fracasso do Inovar-Auto

O que matou o Inovar-Auto, além da queda do mercado pela retração econômica e a dificuldade do governo em regulamentar os passos seguintes, foi a desvalorização cambial e a inércia dos órgãos gestores em reagir e corrigir a rota. Chegamos ao final do programa e, após quase cinco anos, ele ainda está sendo regulamentado, um sinal de competência para criar e incompetência para executar.

Sinto-me a vontade para falar sobre isso pois publiquei vários artigos elogiando o programa em 2013 e 2014, mas alertei que seria difícil operacionalizar tudo aquilo em tempo hábil.

Muitas empresas desenvolveram seus planos de negócios e investimentos considerando até 35% de componentes importados, em voo de cruzeiro. O mercado caiu, o dólar subiu e os planos fizeram “água”. Para piorar, as denúncias de corrupção que eclodiram ao final de 2015 afugentaram muitas empresas do País.

Agora, em vez do Inovar-Auto II, surge algo novo, mais moderno e alinhado com as mudanças da tecnologia e novas demandas, capaz de enfrentar as rupturas de tendências que estão por vir. Manufatura 4.0, fábricas inteligentes, conectividade, controles de processos descentralizados, internet das coisas, soluções personalizadas, inteligência artificial, etc. O ROTA 2030 parece ir ao encontro de tudo isso.

O programa, ainda não divulgado até essa data, considera incentivos em temas fundamentais para a evolução do setor automotivo brasileiro, tais como a reestruturação da cadeia de fornecedores, novas tecnologias de motorização, eficiência energética, desenvolvimento de produto, segurança dos veículos, e estrutura de custos para integração e aumento da competitividade, mas também considera aspectos ácidos politicamente como legislação trabalhista, inspeção veicular e uma nova matriz tributária.

Ao contrário do Inovar-Auto, ainda em vigor, mas fora de moda, o ROTA 2030 busca previsibilidade para planejamento a médio e longo prazos, um programa que vigore efetivamente por dez ou quinze anos. Isso é absolutamente necessário, pois no setor automotivo os projetos não nascem da noite para o dia e consomem rios de dinheiro.

O desafio é fazer o Brasil chegar, em quinze anos, com nível tecnológico equivalente aos países de primeiro mundo e ainda, integrar-nos como centro de produção e exportação, com competitividade em tecnologia, eficiência e custo.

O que pode dar certo? Resposta: algumas coisas. O que pode dar errado? Bem, segue uma lista de itens que precisam estar no radar.

  1. Como estabelecer um programa tão complexo no Brasil e de longo-prazo, com tantas notícias ruins, mudanças e incertezas a cada dia e convencer investidores a aportarem novamente na maior economia da América do Sul?
  2. O programa tem nove ou dez itens principais e será implementado parcialmente, deixando temas fundamentais para discussões paralelas ou posteriores, entre eles as questões tributárias e relações trabalhistas, dois monstrinhos que extirpam a competitividade da indústria brasileira e que dificilmente seriam aprovados como o setor realmente precisa. Geralmente, aquilo que se deixa para depois acaba saindo da lista das prioridades iniciais.
  3. Como imaginar que um programa desse porte conseguirá ser implementado e controlado sem “colchas de retalhos”, logo após um outro, bem mais simples, que fracassou e sequer foi regulamentado, lembrando que os atores são os mesmos?

Por que o ROTA 2030 pode nascer ultrapassado

Alemanha e França acabam de decretar a morte dos carros a gasolina e diesel, banindo veículos a combustão em 2030 e 2040, respectivamente. A Volvo, sempre na vanguarda, anunciou que produzirá somente carros elétricos ou híbridos a partir de 2019. A China segue firme no desenvolvimento de energia alternativa e limpa no setor automotivo e deve assumir a liderança, também nesse segmento.

A Manufatura 4.0 e a nova ordem do comércio globalizado vão demandar flexibilidade para competir no mercado regional e mundial, ao mesmo tempo. No caso do Brasil, o mercado regional (latino-americano) está um degrau abaixo em termos de exigências, mas ele não sustenta, sozinho, futuros investimentos. O atraso do País em firmar bons acordos comerciais bi-laterais e participar dos principais blocos econômicos mundiais, também dificulta a implantação, na prática, dos ótimos planos estabelecidos no papel. 

Se não mudarmos a cultura trabalhista e não implementarmos uma política educacional séria, industrial, tributária e multidisciplinar, competentes, alinhadas com este século e com a visão comum dos países maduros e desenvolvidos, não atrairemos investimentos de alta tecnologia no setor e o Brasil continuará com sua vocação primária de grande exportador de commodities agrícolas e minerais, com enorme dependência do que ocorrer na economia chinesa.

Por tudo isso, tenho a sensação que o programa brasileiro ROTA 2030 pode nascer velho. O Brasil precisa de programas para colocá-lo no 1o. mundo e não apenas para manter a competitividade entre as nações da 2a. divisão do campeonato.

Nota de edição: A Inglaterra acaba de anunciar que também vai banir veículos com motores a combustão, a partir de 2040. Agora, ela se junta à França, Alemanha, Suécia e China, como os países que saíram na frente em ditar as novas regras de emissões de veículos.

Editado em 26/07/2017

Orlando Merluzzi, 08/07/2017

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