AS NOVAS FRONTEIRAS DA CHINA AUTOMOTIVA – (Tendências)

Fatos, dados e versões

Há seis anos escrevo sobre as fronteiras da China automotiva. Nesse período visitei muitas vezes aquele país, conheci linhas de montagem de veículos chineses e de marcas não chinesas que produzem lá, cultura, história, relações pessoais e um pouco de como pensam os chineses, estrategicamente.

Não existem mais fabriquetas de fundo de quintal por lá. Qualidade é um mantra praticado 24 horas por dia, em um país que produz um veículo por segundo.

Não se conhece a China indo lá para fazer compras. A China é linda, mas é um “hub” capitalista num ambiente com gestão meritocrática. É preciso sair dos centros turísticos e participar de longas reuniões de negócios com os chineses e, se tudo correr bem, com algumas rodadas de “Ganbei” no final (significa secar o copo). Demonstra felicidade e amizade, mas o efeito no dia seguinte é terrível.

A indústria automobilística é o termômetro da economia em qualquer país. Nos últimos 15 anos a produção chinesa de veículos saltou de 2,3 milhões de unidades por ano, para 28,1 milhões em 2017. Qualquer marca global de veículo, para ser bem-sucedida no mundo, precisa ter uma boa participação de mercado na China.

De um modo objetivo vou apontar as tendências para as novas fronteiras da China automotiva, a seguir, mas antes, observe bem os dois gráficos abaixo:

Fatos e dados

  1. A produção mundial de veículos nos últimos 10 anos não cresceu e permaneceu relativamente estável. O que cresceu foi o mercado chinês e a China entrou em campo, jogando pesado. Observe, no primeiro gráfico, o efeito da China na produção mundial de veículos e imagine o que seria essa produção global se Deng Xiaoping e Jiang Zemin não tivessem aberto a China para o mundo e feito grandes sucessores.
  2. Quanto às vendas internas chinesas, há uma tendência clara de expansão contínua da curva vermelha para os próximos anos, mesmo que o ritmo diminua. O mercado interno chinês foi construído sobre as bases de uma matriz econômica antiga, a qual o atual líder Xi Jinping está mudando (de fomento à produção, infra-estrutura e poupança, para financiamento, consumo e prestação de serviços). Isso significa que os chineses, que praticamente adquiriam veículos somente “à vista”, passarão a fazê-lo de forma financiada. Não se assuste se o mercado chinês ultrapassar os 30 milhões de veículos por ano, no início da próxima década, ou seja, depois de amanhã.
  3. A China estabeleceu metas ousadas para produção de veículos com “emissão zero”, 25% de carros elétricos como “landmark” daqui a cinco anos. As principais associações de produtores mundiais enviaram, conjuntamente, uma carta ao ministro da tecnologia da China no último dia 18 de junho, pedindo para que as regras sejam mais flexíveis e as metas sejam atrasadas em, pelo menos, um ano. Isso ocorre porque as principais marcas de veículos mundiais produzem na China, seja para vender no mercado local, seja para exportar a partir daquele país.
  4. Embora a Tesla seja a “queridinha” do mercado, são os chineses que dominarão o mundo em referência à produção de veículos elétricos, conectados e autônomos. Para isso, as marcas chinesas estão adquirindo participações em consagradas marcas mundiais, pagando, parte em dinheiro e parte em mercado, ou seja, oferecendo o mercado automotivo chinês como moeda de negociação. Lembro que a China possui reservas internacionais acima de 3,2 trilhões de dólares, o que garante a solidez e os planos econômicos de Beijing.
  5. A China já possui o maior supercomputador do mundo, o Sunway TaihuLight que faz 93 quatrilhões de cálculos por segundo (93 petaflops) e recentemente apresentou um robô em forma humana, com emoções, interatividade e movimentos tão perfeitos, que muitos não perceberam que tratava-se de uma máquina. Bem, o segundo maior supercomputador do mundo, o Tianhe 2, também está na China. Já há relatos de veículos autônomos superconectados em teste na China, com índice “zero” de falhas (e olhe que, para não falhar naquele trânsito maluco o equipamento deve estar muito avançado).
  6. Os países desenvolvidos possuem uma relação estável na taxa de habitantes /veículo, variando de 1,3 a 1,7. Isso significa que, nesses países não há mais a possibilidade de crescimento do mercado automotivo, uma vez que as vendas são, praticamente, substituição.

Se a tendência de abandono do automóvel como bem pessoal se confirmar, no futuro esses mercados poderão até recuar. Isso não ocorrerá na China tão cedo, pois a relação habitantes/veículo é superior a 10, ou seja, tem muito para crescer ainda. O mesmo ocorre na América Latina, em menor escala.

Veículos “premium” de marcas consagradas são produzidos na China com a mesma qualidade e eficiência de suas matrizes europeias. Assim, é possível que você venha a importar um veículo da Alemanha ou Inglaterra, produzido na China. Nos Estados Unidos isso já ocorre com uma famosa marca sueca.

Escrevi recentemente um artigo sobre a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas, que complementa o artigo de hoje. Não deixe de ler, bom final de semana e “Ganbei”!

Orlando Merluzzi – 05/08/2017


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