Como evitar o distanciamento do Brasil na evolução tecnológica automotiva

A evolução tecnológica ocorre em degraus e cresce de modo exponencial. O degrau é quando aquilo que você nem sonhava que poderia existir é lançado e muda completamente a sua pirâmide de necessidades. A forma exponencial de crescimento é a velocidade natural com que as pessoas adotam essas novas tecnologias.

Foi assim com a internet, Google, Skype, smartphones, Spotify, mídias sociais e já está ocorrendo com assistentes virtuais e inteligência artificial pessoal. Discutir a relação com seu Google Home, Siri ou Cortana já é uma realidade para alguns e pode colocar em risco a profissão de Psicólogo, em pouco tempo.

Quando não há barreiras econômicas, culturais ou religiosas, as novas tecnologias passam a fazer parte da nossa vida da noite para o dia, sem nos darmos conta, mas quando o setor automotivo entra nesse universo a discussão fica sujeita a elementos logísticos, políticos e legislativos. Como simples exemplo, o airbag para veículos, que nos EUA se tornou obrigatório em 1990, no Brasil entrou como item de série em 2014 (24 anos depois), por uma obrigatoriedade legal e não por demanda inconteste.

O que isso tem a ver com o futuro da indústria automobilística no Brasil?

Com exceção feita aos carros movidos à álcool, lançados no Brasil há quase 40 anos, o país não possui tradição em desenvolver alta tecnologia para o setor, por fatores estruturais, deficiência educacional, falta de apoio às pesquisas, inexistência de políticas consistentes e disputas tributárias que afugentam investimentos em produtos com valor tecnológico agregado.

As novidades tecnológicas para o setor automotivo no Brasil, quando não implementadas por obrigatoriedade legal, em geral são itens de luxo os quais o mercado consumidor não está disposto a pagar.

Contudo, a próxima mudança no setor automotivo mundial fará a evolução tecnológica subir vários degraus ao mesmo tempo e é nessa fase que a indústria automotiva brasileira corre risco e poderá se distanciar, novamente.

Considerando que o tamanho do mercado consumidor em países maduros já está consolidado, com uma taxa de 1,5 a 2 habitantes por veículo, é na América Latina e na Ásia que estão as oportunidades de expansão para a indústria automobilística, só que na China o mercado anual deve atingir 30 milhões de veículos em breve e no Brasil, se tudo correr bem, poderá retornar a 3 milhões de veículos daqui três anos. Ao mesmo tempo, Europa e China desenham políticas de incentivos e obrigatoriedade para veículos elétricos e o fim dos motores a combustão, enquanto no Brasil o Ministério da Fazenda mede forças com o MDIC e empurra o ROTA 2030 para data incerta (que já não é um programa tão alinhado com as tendências mundiais de médio e longo prazos), lembrando que o Inovar-Auto acaba no final deste mês e após cinco anos, ainda possui itens que não foram regulamentados.

O mundo evolui com tecnologias que, no Brasil, estão distantes no horizonte. A queda de barreiras virtuais, conectividade, veículos autônomos e energia limpa, para serem implementadas aqui esbarram em questões estruturais, políticas, tributárias e educacionais, que no mínimo tornam os processos produtivos ineficientes e caros. A mobilidade inteligente precisará vencer barreiras culturais antes de ter seu mérito. A própria forma de vender um veículo no varejo vai mudar, mas o Brasil é o único país no mundo com uma lei que regula o relacionamento entre montadoras e redes de concessionárias. A assistência técnica em veículos autônomos e elétricos já foi testada com sucesso por ações remotas diretamente das fábricas, tanto nos EUA como na China.

Precisaremos antes nos preocupar com o futuro das redes de concessionárias, que não terão mais óleos, filtros e pastilhas para trocar e assim, a absorção de pós-venda sofrerá um duro golpe até se capacitarem para um novo negócio que surgirá com a reciclagem das baterias dos carros elétricos.

Como evitar o distanciamento?

Não há uma fórmula cartesiana para colocar o Brasil em pouco tempo no primeiro mundo do desenvolvimento automotivo, mas é fundamental que governos e entidades associativas alinhem-se para evitar que as marcas globais, que lideram o desenvolvimento tecnológico, foquem nas demandas da China e dos demais países desenvolvidos e deixem a América Latina para escanteio. Se isso assim ocorrer, o Brasil poderá ficar novamente com linhas de veículos defasados e teríamos a volta das “carroças”, mas desta vez, com airbag, freios ABS e controle de tração.

Coloque-se no lugar de altos executivos europeus, norte-americanos ou asiáticos, responsáveis por aprovar investimentos com retornos pré-definidos (afinal, uma montadora não é entidade beneficente) e responda às seguintes perguntas:

  • Em que lugar há um governo estável, com política previsível, que viabilize os investimentos estratégicos?
  • Quais são os mercados em expansão com tamanho suficiente para justificar os investimentos?
  • Quais países possuem acordos comerciais bilaterais ou multilaterais frutíferos e estáveis?
  • Quais países fomentam políticas industriais que incentivam a produção e a exportação?
  • Quais países podem viabilizar a produção eficiente, com baixo custo e logística flexível?
  • Quais países possuem leis efetivas de combate à corrupção e incentivo ao compliance?
  • Quais países são amigáveis aos investimentos estrangeiros?
  • Quais países possuem sistema tributário, taxas e impostos, menos complexos? 
  • Quais países possuem processos e sistemas menos burocráticos?
  • Aonde podemos viabilizar os retornos previstos?

Se não mudarmos a cultura trabalhista e não implementarmos política educacional, industrial e tributária, competentes, alinhadas com este século e com a visão comum dos países maduros e desenvolvidos, não atrairemos investimentos de alta tecnologia no setor e o Brasil continuará com sua vocação primária de exportador de commodities agrícolas e minerais, com enorme dependência do que ocorrer na economia chinesa.

Nenhum novo programa terá sucesso se não atacar de imediato todas essas questões, entraves que extirpam a competitividade da indústria brasileira. Alguns setores da mídia deveriam deixar de propagar a indústria automobilística como vilã e compreender que, para não aumentar a distância para o primeiro mundo o governo precisará conceder benefícios e incentivos tributários para o desenvolvimento do setor automotivo, como ocorre em outros países. Se faltar recursos para isso há a possibilidade de realocar os benefícios inúteis concedidos às igrejas, sindicatos, algumas entidades filantrópicas, ONG’s e partidos políticos, afinal, não produzem e nem geram empregos e riqueza para o próprio país.

Orlando Merluzzi – Dez/2017

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