Eleição é risco para a retomada do setor automotivo no Brasil

Antes de ser mal interpretado pelo título do artigo, quero ressaltar que a MA8 Consulting projeta um crescimento no mercado entre 10% e 12%, em 2018, para o setor automotivo. Esse índice poderá ser ainda maior para o segmento de caminhões, algo entre 18% e 23%.

Os elementos econômicos favoráveis para sustentar as projeções de crescimento estão colocados sobre a mesa, mas…

O ano de 2012 trouxe recorde histórico em vendas de veículos no Brasil, atingindo 3,8 milhões de unidades. O ápice ocorreu após um período de nove anos, com crescimento médio anual de 11,5%.

Muitos foram os fatores que fizeram o setor automotivo quase triplicar em menos de uma década. Inflação e juros baixos, confiança do empresariado, pleno emprego, disponibilidade de financiamento e crédito, inserção social, valorização das commodities agrícolas e minerais, elevação de trading terms, etc. No lado externo a China fez a parte dela sozinha, pois os EUA entraram em recessão em 2008.

A partir de 2013 a economia começou, de fato, a despencar e o setor automotivo rolou “ladeira abaixo”, com queda de quase 50% em quatro anos. As causas disso tudo já são conhecidas e não pretendo reprisá-las.

O momento da retomada

As projeções da MA8, ainda em 2015 e disponíveis no site da empresa e no blog oleodieselnaveia.com, consideravam que o setor automotivo iniciaria recuperação a partir de 2017. Foi o que ocorreu e no ano passado o crescimento alcançou 9%.

Agora, temos novamente a conjunção de elementos econômicos favoráveis ao setor. Entre eles, os juros e a inflação estão ainda menores que em 2012, os empregos começam a voltar e os índices de confiança dos setores produtivos apontam para cima. Há disponibilidade de financiamento e o mercado latente permanece respaldado por uma taxa de cinco habitantes por veículo (nos países com mercados maduros essa taxa varia entre 1,5 e 2 habitantes por veículo).

Outro fator favorável decorre do ciclo histórico de uso dos veículos novos pelo primeiro dono, o qual, em média, não ultrapassa cinco anos. Entre os anos de 2010 e 2013 foram vendidos quase 15 milhões de veículos no Brasil. Infelizmente, muitos consumidores não conseguiram pagar os financiamentos, gerando perdas bilionárias para as instituições financeiras, mas outros estão prontos para comprar um veículo novo com a recuperação da economia e fazer a “roda girar”.

O que pode atrapalhar?

Cheguei a pensar que seria possível separar a Economia da Política, mas ledo engano. Estou convencido que as duas ciências são indissociáveis e que os discursos políticos dos candidatos com real chance de assumir o posto de presidente em 2019, são armas poderosas que podem intensificar a confiança de empresários e instituições financeiras, ou bloquear a retomada do setor automotivo. Além disso, 2018 é ano de Copa do Mundo e uma grande quantidade de feriados prolongados, que reduzirão os dias úteis de vendas ao longo do período.

O processo eleitoral promete fortes emoções e polarização.

O mercado financeiro e o setor produtivo – aquele que gera empregos – não toleram turbulências, principalmente em ano de eleição. Os discursos que não estiverem alinhados com as “reformas” causarão insegurança. A reforma da Previdência é apenas um entre os elementos a serem pautados, mas isoladamente não evitará que o País esteja hipotecado em médio prazo. É necessário, também, apontar programas que reduzam o custeio, a máquina pública e o déficit, para colocar novamente o Brasil na rota dos investimentos internacionais, principalmente no setor automotivo.

A próxima onda tecnológica nesse setor exigirá que o Brasil dispute a “Série-A” desse campeonato, pois os países do primeiro mundo, industrializado e tecnológico, já estabeleceram as metas para desenvolvimento e produção de veículos elétricos, com conectividade plena e inteligência artificial. O Brasil não poderá navegar movido por marolas e perder essa onda.

Por fim, se passarmos por esse ano sem grandes traumas políticos, o mercado automotivo poderá atingir os 3,8 milhões de veículos em até cinco anos, afinal, para isso ocorrer, bastará crescer novamente a uma taxa média anual de 11%. Isso é possível? Sim, é possível, desde que a razão se sobreponha à emoção.

Orlando Merluzzi

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