O que acontece com os veículos elétricos na China?

China Outlook – A influência no mercado global e como isso afeta o Brasil.

A entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio) em 2001 acelerou o desenvolvimento da indústria automobilística local, levando para o país quase todas as marcas e montadoras globais. Na segunda metade da década a China puxou a economia mundial, enquanto os EUA entravam em recessão. Foram construídas centenas de fábricas para o setor automotivo chinês, muitas ultramodernas e em 15 anos o mercado interno saltou de 3 milhões para 30 milhões de veículos. Hoje, representa 30% do setor automotivo mundial.

Com a chegada dos carros elétricos e as metas ambientais estabelecidas em acordos internacionais e comitês (os principais são a COP 21 e o EV30@30)1-2 os países comprometidos com as questões climáticas estabeleceram programas de incentivo e subsídios para produção e venda de carros elétricos e o maior mercado automotivo do mundo não deixou por menos 3.

Em 2016 o governo chinês sinalizou que 12% dos carros vendidos na China em 2020 deveriam ser obrigatoriamente elétricos e isso causou grandes reações das principais montadoras mundiais, pois, considerando que 60% das vendas internas na China são feitas por marcas estrangeiras, a regulamentação exigiria que as empresas estivessem prontas para vender 2,2 milhões de carros elétricos naquele país, em 2020.

As regras mudaram

Em 2018 o governo chinês mudou a política de incentivos e as novas regras, a partir de 2019, beneficiarão a densidade e durabilidade das baterias e não mais apenas participação nas vendas, como era entendido antes. Também, obriga as fabricantes a atingirem metas de redução de consumo de combustível fóssil para os veículos tradicionais, em uma combinação de créditos, incentivos e penalidades, forçando maior eficiência e transferindo parte da conta dos incentivos governamentais para as próprias montadoras. Essas novas regras farão com que, ao menos, 5% das vendas na China em 2020 sejam de veículos elétricos, algo como 1,5 milhão de unidades (no ano passado foram 770 mil).

Ao mesmo tempo em que comunicava as novas regras para as montadoras, a China também anunciou a intenção de reduzir os subsídios ao consumidor. Com a finalidade de incentivar o desenvolvimento de veículos elétricos com maior alcance e maior densidade de bateria, a nova política do governo chinês tem as características abaixo:

  • Aumenta os subsídios em veículos elétricos que superem 290 km com uma única carga de bateria;
  • Diminui os subsídios em veículos elétricos que estejam na faixa de 145 a 290 km de autonomia;
  • Elimina os subsídios para carros com autonomia de bateria inferior a 145 km.

Alguns complexos industriais na China podem ficar obsoletos

As mudanças na regulamentação de veículos elétricos na China obrigam as montadoras a repensarem suas estratégias de desenvolvimento de produto, produção, logística e vendas. Outro ponto de preocupação é que todo esse redirecionamento de estratégias pode ameaçar e tornar obsoletos os enormes investimentos que foram feitos, nos últimos anos, em fábricas de veículos com motores a combustão interna e isso inclui muitas fábricas de fornecedores de peças e componentes.

A China utiliza o tamanho do seu mercado como moeda de troca e isso permite que ela dite quase todas as regras, afetando diretamente os planos estratégicos dos países desenvolvidos e das marcas globais.

Alianças

Muitas montadoras já definiram data para encerrar a venda de carros com motor a combustão interna em alguns países, o que não significa que irão parar de produzir carros a gasolina ou diesel. Algumas firmaram alianças estratégicas, até com parceiros improváveis, tendo o objetivo de acompanhar as novas diretrizes dos comitês e acordos internacionais e principalmente, para garantir a capacidade de atender às novas regras chinesas e manterem-se competitivas. Basicamente, tais estratégias estão focadas no desenvolvimento e produção de baterias, principalmente por que as atuais baterias “ion de Lítio estão com os dias contados e serão substituídas por baterias “solid-state”.

Os carros elétricos enfrentarão nos próximos anos uma evolução tecnológica similar ao que ocorreu com os telefones celulares em anos recentes. Há grande chance dos atuais carros elétricos tornarem-se obsoletos nos próximos oito anos.

O impacto no Brasil

O mercado chinês é tão importante para as grandes marcas globais, que praticamente todas anunciaram novas e agressivas metas para produção e venda de carros elétricos, tanto na China quanto no mundo. Aí é que o Brasil precisa estar atento pois, temos a tecnologia flex e dominamos a produção de etanol (e isso não pode ser simplesmente abandonado), mas talvez as grandes marcas não se interessem em manter recursos direcionados para novas pesquisas e desenvolvimento nessa tecnologia brasileira, apesar do grande mercado consumidor por aqui.

A questão das novas baterias é um dos pontos importantes a serem observados durante os primeiros anos de vida do novo mercado de carros elétricos, uma vez que, quem adquirir um carro elétrico em 2019 provavelmente terá que fazer a primeira troca de bateria em 2025 ou 2026, quando a atual tecnologia já estará obsoleta. Dessa forma, reforço minha recomendação para que as montadoras no Brasil lancem os veículos elétricos acompanhados de um programa de recompra garantida, que valorize o produto usado da marca. Sem isso, pode não haver mercado futuro de carros elétricos usados e comprometer a venda do segundo carro novo, para o mesmo cliente.

O pior cenário seria uma “moda retrô” e uma volta ao passado, com o mercado demandando novamente veículos com motores a combustão, na segunda metade da próxima década. Algo estranho de se comentar neste momento, mas não impossível de acontecer. A conferir.

Autor: Orlando Merluzzi – Out/2018


1 COP21 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) foi uma conferência realizada em Paris em 2015 e teve a participação de chefes de representantes de 195 países, sendo que o principal tema foi o clima e as mudanças climáticas causadas pelo efeito estufa e aquecimento global. O “Acordo de Paris” teve como principal objetivo firmar compromisso entre as 195 nações, voltado para a redução das emissões dos gases do efeito estufa. Este acordo deverá entrar em vigor a partir de 2020 e o objetivo é reduzir o aquecimento global, para que até o ano de 2100 a temperatura média do planeta tenha um aumento menor do que 2°C.

2 EV30@30 é uma campanha lançada em 2017 pelos países membros do comitê mais engajado na questão da energia limpa e redução de poluentes com veículos elétricos. Ela possui uma ambição coletiva, em que os países membros desse comitê alcancem 30% de vendas de veículos elétricos no ano de 2030. Esses países são: Canadá, China, Finlândia, França, Alemanha, Índia, Japão, México, Holanda, Noruega, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos.

3 Incentivos. Sem os incentivos de governo o mercado de veículos elétricos não teria se desenvolvido na China e assim também ocorre em outros países. Em 2017 os subsídios de governo chinês atingiram US$ 7,7 bilhões (média de US$ 10 mil/veículo). Para poder comprar um carro extra, em Beijing, com motor tradicional de combustão a gasolina, é necessário conquistar uma licença extra. São 3 milhões de inscrições para 3 mil licenças por mês e um outro tanto por meio de loteria. Quem compra o carro elétrico fica fora dessa fila e recebe a licença imediata. Como a China projeta alcançar vendas acumuladas de 7 milhões de carros elétricos até 2025, os incentivos e subsídios serão reduzidos.

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