O movimento anti-China não se sustenta no Brasil

… e as exportações para a China continuam crescendo em 2020.

Em comércio exterior há duas regras que jamais podem ser esquecidas. A primeira é conhecer e respeitar todas as culturas e a segunda, fazer negócios com todos os países, em uma via de duas mãos.

É muito importante que o Brasil esteja alinhado com todos os blocos, não só pelo comércio exterior, mas também porque há uma nova ordem de poder global emergindo e seja ela qual for, devemos manter boas relações, sempre.

Uma relação de dependência, sem volta

O movimento anti-China que surgiu nos últimos meses, em todo mundo, pode ser visto como uma armadilha para os desatentos e quem embarcar nele perderá muito dinheiro em médio e longo prazos.

Abraçar essa onda de antipatia não é uma escolha das mais inteligentes e vou mostrar em 15 tópicos, por que o Brasil depende muito mais da China do que de qualquer outro país e essa matriz de dependência não vai mudar tão cedo.

1)    A economia da China está voltando e quer as pessoas queiram ou não, é a China que vai puxar novamente a economia mundial (lembrando que eles ainda têm US$ 3 trilhões em reservas).

2)    A China é responsável por 58% do superávit comercial do Brasil nos últimos dois anos (62% em 2019).

3)    Nos últimos dez anos o Brasil acumulou US$ 148 bilhões em superávit com a China e no mesmo período perdeu US$ 42 bilhões com os EUA em déficit comercial.

4)    Se o Brasil tem hoje vultosas reservas cambiais, deve a maior parte delas à China e, em especial, ao agronegócio e as atividades extrativistas minerais.

5)    A China é nosso principal parceiro comercial e 28% das nossas exportações em 2019 tiveram o país asiático como destino, resultando em um saldo comercial de US$ 28 bilhões favoráveis ao Brasil. Em 2018 o saldo superou os US$ 30 bilhões.

6)    Nosso principal produto de exportação é a soja e disputamos a liderança na produção mundial com os EUA. A China compra mais da metade de toda soja exportada no mundo e em 2019 importou 82 milhões de toneladas, 72% vendidos pelo Brasil.

7)    O segundo produto mais exportado pelo Brasil é o petróleo e em 2019 a China comprou 63% de nossas exportações.

8)    O terceiro produto mais exportado pelo Brasil é o minério de ferro e em 2019 a China foi responsável por 59% de tudo o que exportamos nesse setor.

9)    As projeções para o ano de 2020 são ainda melhores, quando me refiro ao comércio com os chineses no agronegócio. Mantendo apenas o tópico na soja, a China deve importar 85 milhões de toneladas e o Brasil deve fornecer 77% de toda compra dos chineses, o que representará 85% de nossas exportações de soja no ano e 55% de toda produção brasileira do grão. Os dados são da Aprosoja e do Secex.

10) Quase 250 mil produtores rurais no Brasil vivem da cultura da soja, gerando aproximadamente 1,5 milhão de empregos diretos.

11) Na comparação entre os quatro primeiros meses de 2020 (janeiro a abril) com os quatro primeiros meses de 2019, aumentamos nossas vendas para a China, mas perdemos volume em outros países devido ao efeito da pandemia global.

12) Nesse período, comparando-se 2020 contra 2019, as exportações do Brasil para a Ásia cresceram 15,5%, sendo que para a China, o maior mercado, cresceram 11,3%.

13) No mesmo período, nossas exportações caíram para EUA, Europa, América do Sul e Oriente Médio, respectivamente com quedas de 24%, 4%, 21% e 30%.

14) Apesar da crise, da pandemia e algumas ofensas aos chineses, incompreensíveis, nos primeiros quatro meses de 2020 a China foi responsável por 32% do total de nossas exportações, quatro pontos percentuais acima de 2019.

15) As exportações do Brasil para a China, nos quatro primeiros meses deste ano, foram maiores que as nossas exportações para os EUA, Europa e México, juntos.

Sobre a redução de dependência da China

Pode ser um desejo estratégico de alguns países, mas é muito difícil implementar. O mercado consumidor interno chinês representa 25% do mercado consumidor mundial. Ficar fora dele é reduzir a expectativa futura de sobrevivência das empresas globais. Por exemplo, a coreana Samsung acaba de encerrar operações na China, não porque decidiu repatriar suas operações para Seoul, mas porque não consegue se impor sobre Huawei, Xiaomi, OPPO e VIVO, ou seja, para a Samsung o mercado chinês ficou inviável.

No setor automotivo, as montadoras estrangeiras detêm 59% daquele mercado (41% são das montadoras chinesas), lembrando que o mercado automotivo chinês representa quase 30% do mercado automotivo mundial. A produção global continuará sendo “cost driven” e acho muito difícil competir em custos com a China, mesmo que o custo da mão de obra chinesa esteja subindo.

Supercomputadores são usados para pesquisas, previsões e simulações muito complexas. Sem eles não se desenvolve inteligência artificial, novos remédios, vacinas, armamentos, explorações terrestres e extraterrestres, novos materiais, etc. A China possui o maior número de supercomputadores no mundo (227), quase o dobro dos EUA (118), seguidos pelo Japão (29), França (18) e Alemanha (16).

O Brasil depende mais da China do que ela de nós. Muitos dos produtos agropecuários e minerais que exportamos a eles podem ser comprados em outros países, como EUA, Argentina, Paraguai, Austrália e, portanto, é preciso preservar essa relação comercial.

Para finalizar, deixo um provérbio como pensamento que pode ajudar a interpretar as entrelinhas deste artigo: “se você tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um ficará com uma laranja; se você tem uma ideia e troca com uma pessoa que tem outra ideia, cada um ficará com duas ideias; se você tem uma ideia e uma laranja e troca com outra pessoa que só tem uma ideia, cada um ficará com duas ideias e a outra pessoa ficará com a sua laranja”.

Sabedoria milenar. É sempre bom estar “de bem” com quem tem laranjas e ideias.

Orlando Merluzzi (*)


Fontes: BCB / Secex / Aprosoja / Oica / MAPA / MA8


(*) – CEO da MA8 Consulting, gestor, consultor, palestrante e âncora no Portal Pensamento Corporativo.

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