Agronegócio, a matriz de transporte vai mudar em dez anos.

Haverá impacto nas vendas de caminhões pesados.

A indústria de caminhões acima de 3,5 toneladas (segmento Anfavea), vendeu nos últimos quatro anos, já incluso o ano de 2020, aproximadamente 315.000 caminhões dos quais, o segmento pesado representou 47%, mas nem sempre foi assim e não será por muito tempo. Em uma história recente o segmento de caminhões pesados representa, em média, 35% das vendas totais da indústria e nos últimos dois anos representou 50% de todas as vendas, turbinado pelo agronegócio. Nos últimos 24 meses foram vendidos 35.000 caminhões para o agronegócio, representando 37% do segmento de caminhões pesados no período.

O aumento da participação dos pesados deve-se à expansão do agronegócio, mas também à retração do restante da economia, o que sugere, a médio prazo, um reequilíbrio dos segmentos no setor.

Qual o tamanho do mercado de caminhões no Brasil (acima de 3,5 toneladas)? Em condições normais da Economia, com crescimento moderado regular e previsibilidade, o mercado gira em torno de 150.000 caminhões por ano e no atual cenário vai demorar um pouco para atingir essa marca novamente.

Observe que, nessa análise, não estou considerando os caminhões entre 3,0 e 3,5 toneladas, que adicionam outros 20% no tamanho do mercado de carga a diesel.

O que vai mudar nos próximos anos

O crescimento regular da safra de grãos, acompanhado por recordes sucessivos e uma produtividade espetacular (em ton/ha), faz com que algumas entidades projetem que o Brasil atingirá safras anuais acima de 350 milhões de toneladas até o ano de 2030, algo como 26% de crescimento em dez anos.

Isso não significa que as vendas de caminhões pesados para o agronegócio acompanharão o mesmo índice de crescimento.

Os caminhões pesados continuarão sendo a principal engrenagem no modal de transportes para o agronegócio, mas perderão espaço nos próximos anos para dois novos elementos na equação, os quais deverão ser considerados no planejamento estratégico dos stakeholders. É preciso olhar com atenção os seguintes pontos:

1. Ferrovias

Atualmente, pouco mais de 16% da safra de grãos é escoada até os portos por trens, enquanto a malha ferroviária representa 15% da matriz de transporte no Brasil, sendo que o minério de ferro ocupa a maior parte dessa malha. Segundo dados da ANTT e da APROSOJA, temos basicamente quatro redes ferroviárias que transportam grãos: a Ferrovia Norte-Sul – Malha Norte (operada pela VLI), Ferrovia Centro-Atlântica, Ferrovia Malha-Sul (Rumo Logística), Paranaguá/PR – São Francisco do Sul/SC e a Ferrovia Malha-Norte (Rumo Logística) Rondonópolis/MT – Santos/SP. Em 2019 essas ferrovias transportaram 38 milhões de toneladas de grãos até os portos (Fonte: Aprosoja).

O projeto de expansão das ferrovias, oficializado pelo Governo Federal, pretende dobrar a participação do modal ferroviário na matriz de transporte no país, chegando a 30% daqui a dez anos. O transporte ferroviário, para o agronegócio, é mais barato e pode reduzir as perdas em até 60%, comparado ao transporte rodoviário. Inevitavelmente, isso impactará nas vendas de caminhões pesados. O plano do Ministério da Infraestrutura, por meio do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) prioriza três novas ferrovias: Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL); a Ferrogrão, que ligará o Centro-Oeste ao Pará; e a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO).

2. Verticalização de parte da produção do agronegócio

Integração agroindústria – Estratégia de negócios.

Os grandes produtores do agronegócio devem buscar, em médio prazo, agregar valor para seus produtos e marcas, bem como uma proteção contra as variações dos preços das commodities. É de se imaginar que, em um futuro não muito distante, os preços das commodities agrícolas não se sustentarão nos níveis atuais, uma vez que a China (driver dos preços internacionais) está investindo em muitos países, buscando aumentar a oferta de produtos agrícolas para seu próprio consumo. Destaco a expansão que a África Subsaariana terá nos próximos anos. Em adição a isso, o crescimento do mercado de alimentos com fontes de proteína de origem vegetal é uma megatendência global em consumo e em oportunidade de negócios verticalizados. Esse mercado cresce a um ritmo acelerado.

A verticalização do agro pode ser combinada com fontes vegetais e animais, gerando uma indústria atrativa para o mercado internacional. Produtos industrializados com valor agregado abrirão espaço para a ampliação do atual modal de transportes no agronegócio-agroindústria.

Nota: O custo da produção agrícola deve crescer bastante nos próximos anos, principalmente pela necessidade da adoção de novas tecnologias de produção. Outro fator a ser monitorado é o preço da terra no Brasil. Atenção especial deve ser dada ao projeto de lei 2.963/19 que avança a passos largos no Senado e autoriza/regulamenta a venda de terras para estrangeiros. Esse projeto traz riscos ao negócio e para a economia. Já produzi farto material sobre as desvantagens desse projeto.

Sendo assim, é fundamental que fabricantes, produtores rurais e transportadores considerem todos esses fatores em seus planejamentos estratégicos de médio e longo prazos. Tudo isso ocasionará uma sensível mudança no modal de transportes para o agronegócio, integrando com a agroindústria e com as novas malhas ferroviárias.

Grandes oportunidades para quem estiver atento, bom momento para revisar o planejamento estratégico.     

Orlando Merluzzi *


* Conselheiro independente, consultor e sócio-gestor da MA8 Management Consulting


#agronegócio #agroindústria #caminhões #ferrovia

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