Quanto vale uma franquia de Caminhões? Fundo de Comércio.

Quanto vale uma franquia de veículos de carga no Brasil? Bem, depende de muita coisa, mas vamos começar pelo Fundo de Comércio e para isso é preciso compreender o mercado em que a marca atua. O market share ao longo de um período e a construção do parque de absorção de pós-venda são os elementos iniciais.

O segmento vocacional diesel acima de 3,0 toneladas de PBT vendeu 2,3 milhões de veículos de carga no Brasil nos últimos dezessete anos. Isso significa que as fabricantes de furgões de carga, chassis-cabine com eixo traseiro simples e demais caminhões colocaram nas ruas, em média, 135 mil veículos por ano. Mercedes e VW/MAN respondem por 46% de todas essas vendas no período, índice que deve crescer com a consolidação do modelo VW Express, recém lançado.

Aftermarket – Estima-se que 66% de toda essa frota ainda esteja em plena utilização (um mercado potencial para o aftermarket de 1,5 milhão de veículos), embora o scrap anual ocorra a taxas diferentes por modelo e marca, e cada caso é um caso.

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Mercado de Caminhões – MA8

No gráfico estão todos os segmentos de caminhões, incluindo o Sub-3,5 Ton, lembrando que esse segmento entre 3,0 ton e 3,5 ton representa, em volume, 30% do mercado de caminhões acima de 3,5 toneladas. Como exemplo, em 2019 o mercado de caminhões (Anfavea/Fenabrave) vendeu 101 mil veículos no Brasil, mas ao incluirmos o segmento Sub-3,5 Ton as vendas em 2019 alcançaram 131 mil veículos.

Esse é o mercado da “análise de valor” do negócio de caminhões no Brasil.

Modelos Iveco Daily e Mercedes Sprinter, além do VW Express, também habitam o segmento de veículos comerciais leves nos relatórios de mercado e nem sempre são lembrados em algumas análises, por estarem alocados em uma segmentação equivocada (salvo por conveniência para habilitação do condutor na categoria B).

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Mercado de Caminhões Segmento Sub 3,5 ton – MA8

A dança do market share no segmento de entrada do mercado de caminhões

Ele é composto por versões chassis-cabine e furgão, com eixo traseiro simples e capacidade de carga entre 3,0 ton e 3,5 ton de PBT. Esse segmento não costuma deixar boa rentabilidade para as marcas e menos ainda para as redes de concessionárias. Porém, gera tráfego, relacionamento com clientes, pós-venda, absorção de serviços e valoriza a franquia dos concessionários (cria valor).

Nota: observe no gráfico o rápido crescimento do VW Express, que em três anos alcançou 13% de participação. É nesse segmento que a Ford ensaia voltar com o modelo Transit, segundo nota da própria empresa.

Em tempo, esse segmento é muito competitivo, varejo puro e requer rede capitalizada, com boa capilaridade, caso contrário a chance de sucesso é mínima. O gráfico anterior traz a fotografia dos últimos onze anos.

Fundo de Comércio

Esses números são usados nas análises e cálculo do Fundo de Comércio, considerando o ticket médio de serviços por modelo, mas não são os únicos elementos. Acrescenta-se estudos da rede de concessionárias, rentabilidade, imagem de marca, segmentação e projeções seletivas de sustentabilidade do negócio e da própria fabricante.

O valor do fundo de comércio não será proporcional ao market share no parque construído. Por exemplo, Volvo e Scania possuem ticket maior e valor mais elevado, proporcionalmente à sua participação.

Ao sair do mercado a Ford deixou uma grande oportunidade de negócios para quem ficou, tanto em vendas quanto em pós-venda, uma fatia que não será absorvida pelos pequenos e o primeiro gráfico já mostra isso.

Calcular o impacto de 1% de market share da marca automotiva no seu Fundo de Comércio é bem mais complexo do que as tradicionais análises financeiras que, em geral, utilizam apenas o método do Fluxo de Caixa Descontado, somados os ativos, adicionados a uma falsa taxa de perpetuidade.

O cálculo correto do valuation deve englobar elementos específicos do negócio automotivo, adicionados de conceitos financeiros consagrados, onde o múltiplo de EBITDA também não funciona muito bem para definir um valor para o negócio.

A definição de Fundo de Comércio nesse setor vai além daquela aceita jurídica e contabilmente – apesar de muitas divergências – como o conjunto de bens e capital, tangíveis ou intangíveis, corpóreos ou incorpóreos, que viabilizam a atividade, o negócio e sua continuidade em um determinado mercado potencial.

Nota: Em negócios de concessão automotiva não existe o fator perpetuidade nos cálculos de avaliação.

O valor de um único ponto percentual de participação no mercado deve ser identificado diferentemente por marca, embora não seja um elemento que componha diretamente o Fundo de Comércio sem os ajustes necessários. Ele vale para todos os participantes da cadeia superior (fabricante, agentes financeiros e canal de distribuição) que estiverem diretamente ligados ao negócio.

É através desse cálculo que definimos, por exemplo, quais redes de concessionárias podem ser chamadas de “blue chips” e as que tendem a ser “blue chips” no futuro.

O valor (financeiro) de um 1% de market share nesse setor não é medido de forma estanque e engloba uma complexa análise no tempo de vida útil do veículo, com comportamentos diferentes nos períodos em curto, médio e longo prazos.

Calcular o valor do negócio e o fundo de comércio no setor automotivo não são atividades para “aprendizes de feiticeiros”, ainda mais quando o segmento em análise é o de cargas vocacional diesel. Requer conhecimento, vivência e ampla visão das atividades e peculiaridades da cadeia logística, manufatura, distribuição e comportamento do consumidor. Este é mais um exemplo de análises automotivas que não podem ser realizadas por algoritmos binários.

Orlando Merluzzi

Dezembro/2020

#caminhões #valuation #goodwill #concessionárias

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