Análise do Setor Automobilístico. O que pode ocorrer nos próximos 3 anos?

O setor automobilístico brasileiro é tão dinâmico e promissor, quanto incerto. Fazer projeções em um cenário de economia volátil, onde o valor dos ativos pode ir do céu ao inferno, da noite para o dia, impactando no humor dos investidores, é um exercício de futurologia que, geralmente, tende ao erro. Contudo há uma certeza, os dados históricos no setor automobilístico nos fornecem muitas informações, ricas para análises, pois podemos facilmente identificar as reações do setor frente ao humor da economia, em situações diversas e projetar o que poderá ocorrer.

Os próximos três anos serão decisivos para o setor no Brasil. A aprovação das reformas é fundamental para pavimentar o crescimento da economia nesta década, contudo não serão suficientes. O aumento do déficit primário em relação ao PIB e a manutenção de níveis elevados no custeio da máquina pública, podem obrigar o país a colocar as mãos nas reservas cambiais (um dos poucos lastros que ainda nos dão credibilidade) e isso tudo impactará diretamente no mercado financeiro, com reflexos imediatos no setor produtivo, nos índices de confiança, níveis de emprego e disposição para financiamento no varejo. O mercado automobilístico é um termômetro de tudo isso. O que acontecer, de hoje até o final de 2023, definirá o futuro de algumas montadoras no País.

A saída da Ford não deve ser considerada como uma tendência, mas como um risco iminente de acender as luzes de alerta para as matrizes de algumas marcas, em seus países de origem.

Olhando pelo retrovisor

Esse gráfico mostra alguns dos principais fatores que ajudaram a trazer novas montadoras para o Brasil entre 2007 e 2015, ou motivaram a construção de novas fábricas para marcas aqui instaladas. Os anos dourados se foram e a reversão desses elementos pode significar o início de um movimento de fuga do país, para marcas com volumes e market share baixos, com modernas fábricas ociosas, que não pagam as contas, nem das montadoras e nem das concessionárias.

O setor automotivo e as redes de concessionárias não costumam ser entidades beneficentes e não há mais como sustentar operações sem resultados na última linha do P&L. Os próximos três anos serão críticos, caso o mercado consumidor e os índices de desemprego e confiança não reajam. Vale lembrar que, uma vez tomada decisão na matriz é quase impossível revertê-la.

Por que a FIAT, VW e GM respondem por mais de 50% do mercado, há anos? Nos últimos dezessete anos, na média, as três marcas detiveram, juntas, 63% de todas as vendas de carros e comerciais leves no Brasil. Se considerarmos os últimos dez anos, as BIG-3 fizeram, juntas, 54% do mercado, mesmo com a escorregada da VW em 2016, que se recuperou muito bem na sequência. Planejamento estratégico, produtos adequados, rede de concessionárias capitalizada, conhecimento do território, tradição e humildade, abrem o primeiro capítulo da série: “Como ser competitivo no maior mercado automobilístico da América do Sul, apesar das reclamações do Custo Brasil”.

Mesmo com a chegada de vários newcomers nesse período, se olharmos o primeiro gráfico com “viés grafista”, veremos que há uma disputa particular entre muitas marcas abaixo da linha dos 10% de market share. A Ford se deixou entrar nessa zona de conflito e não aguentou. Apesar de sabermos que a Ford tem sólidos planos estratégicos de restruturação global, é evidente que, se a empresa tivesse mantido um market share maior no Brasil, não teria tomado a decisão de deixar o país. Se olharmos ainda com mais atenção, veremos que a Ford pode não estar sozinha em futuros ajustes no setor. A linha pontilhada representa o market share de outras 33 marcas.

Como publiquei, recentemente, um único ponto percentual de market share, nesse mercado, representa centenas de milhões de reais no Fundo de Comércio, que envolve uma ampla cadeia de stakeholders, além dos portões da montadora.

O espólio da Ford

Há dois anos a Ford declarou que focaria atividades na China e nos EUA, indicando um novo rumo estratégico e recentemente andou fechando algumas fábricas pelo mundo. Quanto ao Brasil, é difícil dizer isso, mas o país não comporta mais tantas montadoras. O setor investiu em uma projeção que apontava para um mercado de cinco milhões de veículos em 2016. Chegamos a 3,8 milhões em 2012, mas nunca mais nos aproximamos desses números e lá se vão oito anos. Temos dez marcas que detêm 93% do mercado e outras trinta e cinco marcas nos 7% restantes. A conta não fecha para muitas empresas.

A Ford deixa um espólio de 7% de market share para ser distribuído entre várias marcas, inclusive entre o que restar das operações de importação da Ford no país.

Quais montadoras, no segmento de carros e comerciais leves, se deram melhor nos últimos cinco anos? Foi um dos períodos mais críticos da nossa história industrial e econômica recente, apesar dos juros baixos, recordes no agronegócio e reservas cambiais nas alturas. Contudo, planejamento estratégico é algo que se faz bem antes e o que vemos nos gráficos acima são os resultados. De 2015 a 2020 tivemos o meio e o fim de uma crise, o fechamento de centenas de concessionárias pelo país, novas tendências de mobilidade, mudanças de conceitos na indústria, a implantação da manufatura 4.0 (que requer grandes investimentos), mudanças de comportamento do consumidor e o início de outra crise. Batendo tudo no liquidificador e coando, apenas cinco montadoras (de volume) cresceram em market share nesse período; Fiat (por causa da Jeep), VW, GM, Nissan e Hyundai.

Caminhões

A evolução do segmento Cargo-Diesel profissional acima de 3,0 toneladas (incluindo os furgões com mínimo de 8m³), permite a seleção de subsegmentos individuais. Mercedes Benz e VW/MAN, juntas, detém mais 50% de toda indústria e boa parte do espólio de mercado da Ford Caminhões foi destinada para elas. A entrada da VW no segmento sub-3,5 toneladas, com o modelo Express, lhe deu mais 3 pontos percentuais de market share. Volvo e Scania também podem ser analisadas em um subgrupo exclusivo por critérios técnicos, catividade e rentabilidade, dentro dos conceitos de Fundo de Comércio. Volume de vendas representa expectativa de rentabilidade, mas os segmentos mais altos da indústria, semipesados, pesados e extrapesados, são os mais lucrativos para fabricantes e para as redes de concessionárias.

O negócio de Caminhões precisa ser analisado sob vários aspectos. Deve-se considerar os elementos de sustentação da absorção do pós-venda, para os casos de estudos da dimensão do fundo de comércio.

O gráfico mostra a evolução, em 16 anos, de um segmento ampliado e exclusivo, composto por modelos de veículos de carga diesel entre 3,0 e 3,5 toneladas, acrescido de seus irmãos maiores que habitam os andares superiores, no caso, Daily e Sprinter acima de 3,5 ton. É fundamental incluir essas versões na análise, pois, na prática, os produtos são similares aos seus irmãos menores do segmento [Sub-3,5ton] e há enorme quantidade de peças e componentes “comuns”, o que mantém estoques, equipamentos, ferramental e treinamento, dentro dos mesmos processos para as concessionárias.

De forma análoga ao segmento de carros e comerciais leves, mas com valores menores, um único ponto de market share nesse subsegmento representa dezenas de milhões de reais na cadeia dos stakeholders. Esse mercado é composto, também, por furgões ≥ 8m³ com motorização diesel maior que 2.0L e nele estão, entre os principais atores, Mercedes Sprinter, Iveco Daily, Renault Master, Fiat Ducato, VW Express, HR e Kia.

Fechamento de 2020 no setor de veículos de carga vocacional diesel

Nos últimos três anos tivemos o fim de uma crise, o início da retomada econômica, a saída da Ford e a chegada de outra crise. Começamos o ano de 2020 com projeções de crescimento no setor acima de 15% e três meses depois o mercado já previa queda de 40%. Ao final, a retração foi de “apenas” 12%. Nesse cenário, o gráfico mostra quem ganhou e quem perdeu após a saída da Ford. Mercedes e VW/MAN apresentaram o crescimento esperado. Destaque especial para a Volvo, que cresceu 2,3 pontos percentuais no período, nesse segmento total ampliado, que abrange as versões chassi-cabine acima de 3,0 toneladas e inclui os furgões com capacidade de 8m³ e acima.

Os próximos três anos no setor de caminhões

O que ocorrer em vendas neste ano de 2021 não refletirá uma tendência e pode ser um ano de recuperação, como pode ser de ajuste. Em 2022, 2023 e 2024, entrarão, de modo escalonado, todas as novas exigências de emissões, cabine e controles de segurança nos veículos, e não é pouca coisa. Essa necessidade de investimento foi a gota d’água que fez a Ford Caminhões deixar o mercado.

Quem viveu a chegada do Euro 5 em 2012 deve se lembrar da antecipação de compras ao final de 2011. E agora? Qual será o comportamento do mercado? O aumento de preços não será pequeno com toda nova tecnologia que vem por aí. Em média, o aumento será da ordem de 20%.

Subsídios e Carros Elétricos

O setor automobilístico clama por competitividade, previsibilidade e redução do custo Brasil. Algumas operações, hoje, são dependentes dos subsídios para sobreviverem e as novas tecnologias também exigirão benefícios para serem competitivas no país. A principal delas é o Carro Elétrico. Em nenhum país do mundo, as vendas de carros elétricos decolaram sem fortes subsídios ou regulamentações que obriguem a substituição de motores a combustão por veículos puramente elétricos ou híbridos. No Brasil, obrigar, por lei, as montadoras a eliminarem as vendas de carros com motor a combustão, beira a irresponsabilidade e insanidade, uma vez que o setor representa 20% do PIB industrial e o mercado não está preparado para essa mudança (e nem estará tão cedo).

As vendas de carros elétricos e híbridos representaram, em 2020, pouco menos de 1% de todas as vendas de carros e comerciais leves no país. É um mercado que não poderá contar com incentivos governamentais pelos próximos anos (pelo exposto no início desta resenha). É preciso esperar para conhecer a reação dos consumidores a essa nova tecnologia, mas esse segmento só decolará, de fato, a partir da introdução das baterias em estado sólido (solid-state). Por enquanto, o negócio de carros elétricos no Brasil servirá como excelente propaganda de sustentação para a imagem de marca, mas não pagará a conta dos investimentos (dos fabricantes e dos consumidores).

Orlando Merluzzi *


* Sócio-gestor da MA8 Consulting, conselheiro de administração e consultor de empresas, atua há 35 anos no setor automotivo.

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