Por uma nova matriz energética no setor automotivo, sustentável e com características de Brasil

  • Parcerias entre montadoras e o setor sucroenergético colocam o Brasil na vanguarda da redução das emissões, por meio da mobilidade sustentável e dos biocombustíveis.
  • Caminhões extrapesados movidos a biometano ou GNL, são os que podem se adequar melhor a realidade logística do setor primário no Brasil, de forma sustentável e limpa.
Matriz Energética Brasil

O Conselho Nacional de Política Energética – CNPE, órgão interministerial de assessoramento da Presidência da República para formulação de políticas e diretrizes de energia, aprovou a Resolução que institui o “Programa Combustível do Futuro”. Trata-se da melhor notícia para o setor automotivo nacional nos últimos tempos, se for bem utilizada pela indústria, entidades do setor e pelo próprio governo e entrou em vigor no último dia 17 de maio de 2021.

Não se deve impor carros elétricos no Brasil por meio de Lei

Há dois anos alerto para os riscos de o mercado automobilístico seguir tendências dos países desenvolvidos, sem uma análise criteriosa de prós e contras para o setor no Brasil. Aqui mesmo, no portal, você encontrará artigos recentes apontando as consequências para a economia e para as montadoras, caso o Projeto de Lei 304/2017, que tramita no Senado Federal, seja aprovado. O mercado automobilístico brasileiro não comporta uma “virada de chave por decreto”, para uma nova tecnologia ainda em evolução. Os investimentos necessários são elevadíssimos, os custos de produção não são competitivos e a escala local não sustentará operações de marcas com baixo volume, restando o caminho de abandonarem o país. A indústria automobilística representa mais de 20% do PIB industrial.

É certo que os carros elétricos terão sua fatia no mercado brasileiro e devem ser incentivados, mas levará muito tempo para que a tendência se consolide e tenha preços acessíveis. Antes de tudo isso as baterias íon de lítio com eletrólitos em estado líquido precisarão ser reinventadas. Chegarão as baterias em estado sólido (SSB), na Europa, EUA e Ásia, com outros elementos químicos nobres em sua composição e só depois da definição desse novo estágio do produto é que poderemos sonhar em produzir aqui, com escala que justifique os investimentos. Até lá, quase tudo será importado com elevado grau de obsolescência. A que preço?

A matriz energética brasileira e as novas tecnologias que podem nascer da parceria entre o setor sucroenergético e as montadoras

Enquanto as células de combustível com base em hidrogênio ganham espaço no mercado internacional, a tecnologia evolui para os caminhões pesados e várias montadoras fazem apostas nessa solução. O conceito é muito bom e pode fazer as células de combustível trabalharem em conjunto com as baterias elétricas, permitindo que os caminhões pesados tenham longa autonomia, sem comprometer o desempenho e sem emitir partículas nocivas ao meio ambiente. Funcionará muito bem na Europa e em outros países desenvolvidos, mas confesso que tenho dificuldade para imaginar um caminhão extrapesado 6×4, com essas células de combustível, puxando uma composição dupla, operando na BR-163, BR-230 ou BR-364, sem falar na BR-116 e seus 4.600 km de extensão. Será um grande desafio, mas não impossível de ser vencido. Contudo, imaginar uma nova tecnologia de célula de combustível, com base no Etanol, pode mudar as coisas e tornar o Brasil protagonista na sustentabilidade do transporte, limpo e renovável.

Os caminhões puramente elétricos, leves e médios, para entregas urbanas e curtas distâncias, são viáveis como produto e encontrarão maior facilidade para se consolidar no mercado, principalmente com o propósito sustentável (necessário e inevitável), que fará com que muitos frotistas adquiram versões elétricas para poderem fechar contratos e conquistarem novos clientes, mesmo sem conhecer o valor residual do produto ao final do contrato.

Resolução Nº 7, de 20 de abril de 2021: Institui o Programa Combustível do Futuro

Trata-se de uma excelente notícia para o setor automotivo e para o mercado do aftermarket.

O programa tem por objetivo conduzir o desenvolvimento tecnológico dentro da nossa realidade e daquilo que temos como vantagem competitiva. Se bem-sucedido for esse programa, os riscos do PL 304/2017 serão minimizados e a indústria automobilística no Brasil poderá respirar um pouco e planejar os próximos anos, sem sustos. Ficará faltando, apenas, equalizar as questões tributárias, para dar maior competitividade ao setor.

O programa propõe medidas para incrementar o uso de combustíveis sustentáveis, de baixa intensidade de carbono, com vistas à descarbonização da matriz energética do transporte e com princípios de proteção dos interesses do consumidor. Utilizar fontes alternativas de energia, mediante o aproveitamento econômico dos insumos disponíveis, das tecnologias aplicáveis e fortalecer o desenvolvimento tecnológico nacional.

A integração dos bons programas existentes

Entre tantos outros pontos importantes desse programa, destaco a integração entre a política nacional de biocombustíveis (RenovaBio), o programa de produção e uso do biodiesel (PNPB), o programa de controle da poluição do ar por veículos automotores (Proconve), o programa Rota 2030, o programa brasileiro de etiquetagem veicular (PBE Veicular) e o programa nacional da racionalização do uso dos derivados do petróleo e do gás natural (CONPET).

Para o setor de caminhões pesados, intenção da criação de corredores verdes para abastecimento de veículos pesados movidos a gás natural liquefeito, biometano e outros.

Fazendo a conexão com o início deste artigo, o setor sucroenergético nos garante soberania de energia limpa e renovável no desenvolvimento de projetos de veículos elétricos híbridos ou células de combustível com base no etanol. Isso é fantástico e deve ser incentivado. Já há conversas entre algumas montadoras e o setor, nesse sentido e os projetos vão sair do papel.

Um passo importante na valorização da matriz energética brasileira possível e viável para a economia e para o setor automotivo. Melhor ainda, se incentivado for com tecnologia nacional.

Quando falamos em energia limpa e renovável para o setor de transportes no Brasil, a estratégia mais adequada deve estar ancorada no etanol e no gás. Em paralelo, mas não de modo exclusivo, fomentar uma política para carros elétricos que incentive as fabricantes de veículos e componentes a gerarem empregos no Brasil.


* Orlando Merluzzi é conselheiro independente de administração, consultor de empresas, sócio gestor da MA8 Consulting e atua no setor automotivo há mais de 35 anos.

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