As projeções não sustentam os investimentos em carros elétricos no Brasil

As projeções para o mercado automobilístico no Brasil, nos próximos anos, não sustentam os investimentos do setor em carros elétricos e não é preciso utilizar algoritmos complexos para chegar a essa conclusão.

eletrificados projeções ma8

O gráfico mostra o volume médio de vendas anuais, em períodos diferentes e como expliquei detalhadamente em artigo recente, publicado aqui mesmo no Portal, as condições políticas e econômicas, externas e internas, que fizeram o setor automotivo bater todos os recordes entre 2007 e 2012, não estarão presentes nesta década no país. Assim, as projeções de mercado no Brasil, para vendas de veículos, indicam média anual de 2,6 milhões de veículos entre 2023 e 2030 (médiahá consultorias que projetam volumes ainda menores).

Nesse sentido, considerando que 70% do mercado brasileiro é composto por carros de até 120 mil reais (segmento em que os elétricos não participarão com produtos decentes), resta 30% de mercado para os veículos eletrificados, sendo que metade dessa fatia continuará sendo ocupada por carros movidos com motores de combustão interna. Projetamos que os eletrificados ocuparão pouco mais de 20% do mercado em 2030, mas até lá, há um longo caminho ascendente, de convencimento cultural, estruturação logística, eliminação dos riscos de incêndio nas baterias, precificação adequada, política setorial condizente etc.

O ponto principal é que praticamente todas as montadoras já anunciaram seus planos de eletrificação para o Brasil e quem conhece o mercado e os bastidores das fabricantes de veículos sabe que, um volume médio projetado de 400 mil veículos eletrificados por ano (médio) não sustenta os investimentos de tantas marcas já existentes por aqui (e algumas “newcomers” que terão que montar tudo no país). Os carros elétricos de verdade, aqueles com bateria superior a 50kWh, continuarão custando muito caro; as baterias, os packs ou as células continuarão sendo importadas; as redes de concessionárias precisarão aprender a viver longe do tradicional conceito de absorção de pós-venda, o mercado de elétricos usados (ou seminovos) permanecerá uma incógnita por anos e esses são apenas alguns dos desafios para as montadoras. Montar uma rede de concessionárias, convencer os investidores, assegurar margens suficientes na venda dos veículos novos para sustentar a operação, inventar novos modelos de negócios que tragam receitas recorrentes, são tarefas muito complexas para o Brasil e como sabemos, as montadoras não são entidades beneficentes; as concessionárias também não. Bem, o tempo dirá quem fica e quem desiste.

Particularmente, continuo apostando no etanol, na bioenergia e no setor sucroenergético para o futuro da mobilidade limpa, renovável e sustentável no Brasil, tendo como pano de fundo a redução da pegada de carbono.

Orlando Merluzzi (*)


(*) Sócio da MA8 Consulting, conselheiro independente, palestrante e especialista em gestão e governança, atua no setor automotivo há 37 anos.

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