O futuro da Indústria Automobilística no Brasil e os desafios para os próximos anos.

  • Como manter as operações de manufatura e a rede de concessionárias, em um território continental, com mais de quarenta marcas concorrentes e um mercado interno que representa, apenas, 2,6% do mercado automobilístico mundial?

14 desafios do setor automotivo

São grandes os desafios para o setor automotivo no Brasil e se não forem coordenados e endereçados corretamente entre as entidades do setor, associações, investidores e principalmente, legisladores, há risco iminente, em um período curto (de oito a dez anos), de termos o enfraquecimento do parque industrial automotivo nacional, com o desinteresse pela manufatura local, redução dos investimentos em tecnologia e até mesmo, o abandono e encerramento de operações pouco lucrativas. Todo cuidado, atenção e responsabilidade são necessárias, neste momento. É sobre isso que esta matéria trata, com alguns detalhes.

Nota inicial: Tramitam em Brasília, vários projetos de lei que visam a proibição da produção e comercialização de veículos com motor de combustão interna por combustíveis fósseis. São quatro projetos na Câmara dos Deputados (PL 7.582/2017, PL 5.332/2020, PL 8.402/2017, PL 8.291/2017) e um majoritário no Senado (PL 304/2017). O propósito é válido e louvável; a forma e conteúdo são frágeis, superficiais, irresponsáveis e demonstram desconhecimento da amplitude do setor automotivo na nossa economia e os efeitos negativos que tais decisões podem trazer para a indústria automobilística brasileira.

14 desafios

Listo, a seguir, os principais desafios que o setor automotivo brasileiro terá de vencer nos próximos anos, para se manter forte e representativo na atividade econômica do país. Hoje, o setor automotivo (incluindo o aftermarket) responde por mais de 22% do PIB Industrial, aproximadamente 5% de todo PIB do país.

Desafio 1 – Poder de compra x Preço médio dos carros do segmento A/B (70% do mercado)

O maior dos desafios (por isso é o primeiro da lista no quadro) está na fronteira entre o poder de compra do consumidor, com os atuais níveis de preço dos veículos novos. No período pré-crise, aquele em que podíamos projetar vendas anuais consistentes acima de três milhões de veículos, a relação entre o preço médio dos carros dos segmentos de entrada e carros pequenos (Fenabrave), com o poder de compra das famílias (IBGE), era 34:1 e hoje, após uma sequência de recuperação de preços e custos pelas montadoras, agravado pela redução na renda média das famílias, essa relação está em 48:1 (a maior em mais de vinte anos). Na prática, isso significa que não há bases sólidas para projetar volumes de vendas anuais, sustentáveis, acima de três milhões de unidades, em curto e médio espaços de tempo.

Desafios 2 e 3 – Energia Limpa e Renovável | Sustentabilidade

É necessário que esse propósito contemple outras tecnologias, além dos carros elétricos. Essas tecnologias devem ser compatíveis com os recursos do país e sua capacidade de absorção mercadológica. Assim, desenvolver produtos e tecnologia derivados do setor sucroenergético, por exemplo, tendo o etanol como fonte de energia primária, é um caminho viável para salvar o setor automotivo brasileiro no futuro e isso inclui a utilização de Biogás e Biometano para veículos comerciais leves e pesados. O setor sucroenergético nos garante soberania de energia limpa e renovável em projetos de veículos elétricos, híbridos ou células de combustível com base no etanol; sim, o etanol como fonte primaria de energia para gerar eletricidade a partir do hidrogênio.

Não há cadeia de hidrogênio mais “verde” do que aquele produzido a partir das moléculas do etanol.

Desafio 4 – Carros Elétricos Puros. Um mercado restrito.

O mercado dos carros elétricos no Brasil deverá se concentrar na faixa dos veículos que hoje custam mais de cento e trinta mil reais. Essa fatia representa 25% do mercado total e portanto, em uma visão otimista, os carros elétricos poderiam conquistar a maior participação dentro desse segmento, o que lhe daria algo como 15% do mercado total no país, nos próximos anos. Isso é pouco atraente para os investidores e dificilmente recompensará, em curto e médio espaços de tempo, os investimentos necessários para comercializar e atender esses novos produtos. Assim, o desafio é desenvolver no Brasil o sistema de importação, produção, venda, distribuição e atendimento pós-venda, para um mercado que será limitado e que não dará absorção de serviços para a rede de concessionárias. É ilusão achar que as fabricantes poderão atuar diretamente no mercado brasileiro, passando por cima de suas redes de concessionárias e o modelo de agências não poderá ser implementado aqui. (leia a matéria sobre esse tema concessionárias x agências).

Desafio 5 – Baterias

  • Aumentar os ciclos e a densidade; reduzir o peso e o tempo de recarga.

As baterias são, ao mesmo tempo, o coração e o calcanhar de Aquiles dos carros elétricos. Algumas pesam mais de 600kg, têm vida útil limitada e uma autonomia que, além de insuficiente para viagens longas, pode ser ainda menor dependendo da carga e forma de utilização do veículo. Custam mais da metade do valor do veículo, não são intercambiáveis entre marcas, possuem tecnologias distintas e continuam em evolução acelerada, o que fará com que veículos elétricos atuais estejam obsoletos daqui a alguns anos. Para resolver isso, quase todas as montadoras estão investindo em empresas de desenvolvimento de baterias com eletrólitos em estado sólido (baterias SSB). Isso promete mais autonomia, menos peso, menor tamanho, maior vida útil e mais segurança (menor risco de incêndio).

Não se iluda, o preço das baterias não irá cair, ao contrario, deverá subir. (leia matéria sobre esse tema). Novas tecnologias requerem muito investimento e como as empresas não são entidades beneficentes, não espere redução no preço dos carros elétricos no futuro. Como exemplo, o preço do Lítio aumentou mais de 400% em um período de doze meses e as baterias em estado sólido utilizam, ainda mais Lítio em sua composição.

A atual capacidade de produção de células, módulos e packs de baterias íon de lítio ainda é pequena e precisará crescer dez vezes para atender às projeções de vendas de carros elétricos para 2030 em todo mundo e outras demandas por armazenamento de energia (isso inclui a produção de baterias para o aftermarket). Os custos bilionários das novas gigafactories também serão repassados aos produtos, afinal, os investimentos precisam ser pagos. Para as mais de cem gigafactories de baterias para veículos elétricos, planejadas no mundo para os próximos dez anos, nenhuma está, oficialmente, definida para o Brasil (aqui no portal oleodieselnaveia há vários artigos sobre isso).

Desafio 6 – Segurança.

  • Eliminar riscos de incêndio, presentes nas atuais baterias íon de lítio.

Um desafio prioritário para as fabricantes é reduzir o risco de incêndio. O problema de superaquecimento das baterias íon-de-Lítio com eletrólitos líquidos ou pastosos é velho conhecido e espera-se que seja resolvido com a chegada das baterias solid-state (SSB). Várias montadoras, do Oriente ao Ocidente, fizeram recalls dos carros elétricos, recentemente, por causa de alguns casos de incêndio durante a recarga e uma grande fabricante orientou, oficialmente, os clientes a não carregarem os veículos dentro das garagens e os estacionarem fora de suas residências. Sim, isso está no comunicado da fabricante para os clientes.

A bateria íon-de-Lítio, esteja ela em um carro, patinete ou smartphone, pode pegar fogo se for fabricada incorretamente, danificada ou “estressada” se o software que a protege de receber muita carga elétrica não funcionar corretamente. Quanto aos carros elétricos, um dos potenciais problemas das baterias é o sistema interno de refrigeração e com o aumento das vendas, esse tipo de incidente deve ocorrer com maior frequência, seja por erro de montagem, má utilização ou formação de cristais nos eletrólitos.

As fabricantes alegam que, estatisticamente, o número de incidentes é insignificante, mas a questão é quando esse “insignificante” ocorre na garagem da sua casa ou no subsolo do seu prédio de apartamentos com outras dezenas de veículos ao lado. A bateria de um carro elétrico em chamas é uma cena assustadora, um fogo muito difícil de ser apagado.

Desafio 7 – Logística.

  • Estabelecer rede de recarga capilar e viabilizar longas viagens territoriais.

Como estabelecer uma rede de recarga de baterias elétricas ao longo da malha rodoviária em um país com dimensões continentais? Com a tecnologia atual as baterias de um veículo em trânsito demoram muito para receber 80% da carga total e será necessário ter paciência. Quem está acostumado a sair de São Paulo pela manhã, almoçar em Curitiba e dormir em Florianópolis, poderá fazê-lo também com um carro elétrico, mas demorará um pouquinho mais e deverá torcer para não pegar aqueles intermináveis congestionamentos na Régis Bitencourt, na BR-376, na BR-277 ou na BR-101. Então, imagine se a viagem for localizada no interior do país, cruzando os estados do Centro-Oeste, Norte ou Nordeste. O desafio de ofertar suporte de carga e serviços para veículos elétricos ou híbridos, no Brasil, é enorme e complexo.

Nos primeiros anos, o mercado de carros elétricos deverá se concentrar para utilização urbana e viagens de curta distância, lembrando que as características excelentes de malha e infraestrutura do interior do Estado de São Paulo não se repetem no restante do país. Os investimentos nas redes e malhas de recarga precisarão de subsídios e fomento. 

Desafio 8 – Obsolescência.

  • Estabelecer estratégia comercial que assegure o valor do bem no tempo.

Os carros elétricos, célula de hidrogênio ou híbridos, adquiridos hoje, estarão obsoletos em um período de dez anos e poderá ocorrer com eles, o mesmo que ocorre com os smartphones. Antigamente, as operadoras de telefonia aceitavam os aparelhos velhos como parte de pagamento na compra de um novo e pagavam muito bem por eles, hoje não aceitam mais. Talvez as montadoras tenham que fazer algum programa similar de “trade-in” para viabilizar a continuidade do negócio e deveria incluir a troca das baterias usadas dos veículos. Tudo isso custa muito dinheiro e certamente irá para o preço dos veículos novos, além da questão da evolução tecnológica, que não deverá parar nas primeiras baterias SSB que chegarem ao mercado.

Desafio 9 – Carros Elétricos Usados.

  • Desenvolver mercado de usados para viabilizar vendas de veículos novos.

Desnecessário explicar, de forma detalhada, sobre a importância que o mercado de usados tem para viabilizar a venda dos veículos novos. O cliente não fará com os carros elétricos, o que eventualmente faz com os aparelhos usados de telefone celular. Se não conseguir revender o veículo elétrico usado, por um valor que não seja tão depreciado em relação ao bem, talvez não compre um outro veículo elétrico novo e isso poderia aumentar a demanda pelos modelos a combustão interna.

Você compraria um carro elétrico usado, hoje, se ele tivesse cinco anos de uso, sabendo que em pouco tempo precisará substituir a bateria e ela pode custar mais da metade do valor de um veículo novo? Esse é um grande desafio para as montadoras e uma equação para ser resolvida em pouco tempo.

Desafio 10 – Cultural.

  • Moldar a cultura da posse do bem e da eletromobilidade sustentável.

O grande mercado consumidor brasileiro tem no bem (veículo) um investimento patrimonial; uma cultura que demorará um pouco mais para se curvar às novas tendências de pagar pelo uso e não pelo bem.

Desafio 11 – Modelo de Negócios.

  • Desenvolver modelo B2C acessível ao mercado consumidor brasileiro.

Esse desafio diz respeito à forma de venda, atendimento aos consumidores e o papel das redes de concessionárias. Muita coisa irá mudar, novas formas de fazer negócios, novas oportunidades de ganhar dinheiro, maior controle e conhecimento sobre a jornada do cliente. Aos poucos, as redes de concessionárias perderão esse controle sobre a jornada dos clientes e a informação migrará, naturalmente, para as fabricantes.

Os veículos eletrificados conviverão por muitos anos com os veículos movidos a motores de combustão interna e isso exigirá das montadoras e das redes de concessionárias, dois modelos distintos de negócios e duas frentes de investimentos.

Desafio 12 – Segregação.

  • Manter o Brasil atrativo à permanência das montadoras no país (alto risco).

Aqui, um dos maiores riscos iminentes para o setor. Tentar impor, “por decreto”, um novo modelo de negócios para o setor automotivo no Brasil não funcionará (refiro-me aos projetos de lei que mencionei no início do artigo). É um risco para a economia, para o parque industrial instalado e suas consequências poderão defasar o Brasil dos demais países desenvolvidos, pois dificilmente as montadoras farão grandes investimentos de “localização” em um mercado que representa menos de 3% do mercado mundial e ainda vem acompanhado de tantos solavancos políticos, tributários e econômicos.

Desafio 13 – Economia

  • Manter a atividade econômica setorial e assegurar o futuro do aftermarket.

A cadeia automotiva brasileira deve ser protegida de regulações impositivas que estabeleçam regras inalcançáveis em curto, médio e longo prazos.

Os projetos de lei que estabelecem datas para o encerramento da produção de veículos com motor de combustão interna por combustíveis fósseis, não levam em conta que o parque circulante desses veículos, na data de sua entrada em vigor, pode ser de mais de quarenta e cinco milhões de unidades e lembro que, no Brasil, automóvel é patrimônio declarado no imposto de renda.

Esse tipo de projeto coloca sob risco o futuro da indústria automobilística e uma parte da economia, pois estabelece condições de produção, tecnológicas e mercadológicas que o setor automotivo não terá como atender.

Legisladores demonstram desconhecimento sobre os setores industrial, automotivo e econômico, podendo causar um impacto negativo irreversível para o país. O custo da irresponsabilidade e oportunismo em seguir diretrizes externas, as quais não são adequadas à nossa realidade, pode ser muito elevado, hipotecando o futuro do setor e de toda cadeia de fornecedores, distribuidores e agentes financeiros. Algumas montadoras deixarão o país, antes da entrada em vigor da nova Lei.

O mercado precisa ter um tamanho (vendas anuais) que justifique e viabilize os investimentos das montadoras e o parque circulante deve ser protegido, para que mantenha o setor do aftermarket em operação. Em tempo, para cada emprego gerado na indústria automobilística, o aftermarket gera cinco.

Desafio 14 – ESG x Greenwashing.

  • Entregar a eletromobilidade que seja realmente amiga do meio ambiente. Carros elétricos não representam boas práticas de ESG.

É compreensível que muitas empresas queiram aproveitar a onda de conscientização sobre o ESG e as responsabilidades corporativas em temas sociais, ambientais e de governança. Contudo, os carros elétricos não devem ser usados como instrumento de propaganda sobre o tema ESG, pois a produção das baterias desses veículos é tão nociva ao meio ambiente, quanto a extração de combustíveis fósseis. As atividades nas minas de Níquel, Cobalto e Terras Raras, em alguns países, infringem princípios básicos de direitos humanos e de proteção ambiental. Além disso, as baterias íon de Lítio levam em sua composição, além do Lítio, Cobalto, Fosfato, Manganês, Níquel, Cobre e outros elementos que, com o aumento da demanda, apenas farão redirecionar a ordem de poder mundial daqui a algumas décadas. As baterias em estado sólido (SSB), que devem chegar ao mercado até a metade desta década, continuarão utilizando alguns desses elementos em sua composição e provavelmente, acrescentarão outros não menos nobres.

Por fim

Nesse cenário incerto, o setor automotivo passa por uma grande e ampla transformação e os desafios são claros, possíveis de serem administrados e vencidos em alguns pontos. Apesar do Brasil representar menos de 3% do mercado mundial de veículos (fonte: OICA), é a mais importante economia da América do Sul e para as montadoras, estar presente no Brasil é uma questão estratégica por ser um “hub” regional e não só uma questão econômica.

A preocupação fica por conta das matrizes de algumas montadoras, quando resolvem tomar decisões pragmáticas, como aparentemente ocorreu com as operações da Ford, sem esquecer que no início de 2019 o presidente da GM no Brasil ameaçou deixar o país e isso foi antes da pandemia.

Cabe às entidades setoriais e ao governo estabelecerem políticas de incentivo às pesquisas e desenvolvimento de soluções alternativas locais que viabilizem os investimentos e a manutenção das empresas no país.

As declarações de algumas montadoras, no sentido de que poderiam deixar o Brasil, não podem mais ser tratadas como simples ameaças. Em mais de trinta e cinco anos de vivência na indústria automobilística observei que, sempre, uma vez tomada a decisão na matriz em relação a um outro país, é quase impossível revertê-la.

Os próximos três anos definirão uma nova fotografia para a indústria automobilística no Brasil. É preciso ter consciência das oportunidades que oferecemos e dentre elas, a mais potente, renovável, limpa e sustentável está a cargo do setor sucroenergético.

Orlando Merluzzi (*)


(*) Consultor, conselheiro de administração, sócio da MA8 Consulting, estrategista e especialista em gestão e governança, atua no setor automotivo há mais de 35 anos, no Brasil e no exterior. É palestrante, conferencista e autor do livro Potência Corporativa, 2017 (best seller).


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