Os subprodutos da crise no setor automotivo e o impacto nas redes de concessionárias

Orlando Merluzzi
Orlando Merluzzi

A dramática situação vivida pelas redes de concessionárias de quase todas as marcas de carros, caminhões, máquinas e implementos parece não ter fim e indica que o fundo do poço ainda pode estar longe. Não é a primeira vez que enfrentamos algo semelhante, mas é a primeira vez que montadoras e concessionárias se encontram à deriva e tão distante em alto-mar. A razão disso é que para qualquer lado que olhemos, não conseguimos enxergar ainda uma luz no fim do túnel, nem mesmo um trem em direção contrária.

Para quem não viveu a história dos últimos 30 anos nesse setor, talvez o efeito colateral de qualquer remédio aplicado hoje seja percebido tardiamente, quando não será mais possível recuperar o tempo perdido.

Apenas para reviver a memória de uma época em que o carro era instrumento de proteção e um investimento seguro – sim, isso já aconteceu um dia, quando pessoas compravam uma pick-up a diesel pagando 20% de ágio e revendiam três meses depois com 50% de lucro – no final da década de 80, especificamente entre 85 e 89 no governo Sarney, a inflação média mensal do País foi de 15,5% (sim, eu disse mensal). No governo Collor entre 90 e 92 foi de 22,7% ao mês e no governo Itamar, 27,3% ao mês. Houve até um órgão do governo que tentava controlar a inflação no País, o CIP (Conselho Interministerial de Preços) e não o Banco Central. Assim chegamos a hiperinflação. Mesmo com o CIP e outras amarras, emitíamos duas novas listas de preço por mês.

A nova geração, hoje no comando, não tem a menor ideia do que isso significou em termos de stress e adrenalina, mas também foi desse período que surgiram grandes executivos em todos os setores.

Não parou por aí. Entre 97 e 99 o mercado automotivo caiu 35% com as crises da Ásia e da Rússia, mas havia algo diferente no horizonte, pois a inflação já havia baixado para 5,5% ao ano, em média, apesar das crises da Nasdaq e dos ataques às torres gêmeas que seguiram. Mesmo assim, algo balizava um futuro brilhante prestes a acontecer. Veio a China, o mundo cresceu, o Brasil recebeu o grau de investimento e muitas novas marcas e fábricas aportaram em “Terra Brasilis”, um novo mundo que emergia.

Como resultado de tudo isso, a estrutura do setor automotivo, e principalmente as redes de distribuição cresceram exponencialmente, amparadas por projeções que indicavam um mercado de 5 milhões de veículos em 2016 (exatamente o ano em que estamos com um mercado que deve chegar próximo de 2,2 milhões de unidades).

O que temos hoje é talvez, a pior situação da história contemporânea do setor automotivo no Brasil e as redes de concessionárias atingem este momento, após três anos de enfraquecimento financeiro e motivacional. Refiro-me a pior situação, por não termos ainda noção da distância ao fundo do poço. É claro que tudo isso vai passar, assim como outras crises passaram. A questão maior será identificar os sobreviventes do “tsunami” e digerir as lições de uma situação nunca antes vivenciada por newcomers e novas gerações de gestores.

Até quando os PPE’s (programas de proteção ao emprego) conseguirão segurar o nível de emprego no setor e quantas mais concessionárias serão fechadas em 2016? O ano passado identificamos que 630 concessionárias encerraram atividades no Brasil (a Fenabrave diz que foram mais de mil). Pouco importa o número exato. A questão é que em 2016 ainda haverá nova leva.

O subproduto da situação atual, para as redes de concessionárias, está na perda de confiança e nas lições de uma ambição e crescimento que não se sustentaram. Muitas marcas estão, corretamente, ajustando com suas redes de concessionárias um desinvestimento parcial, permitindo que as redes se reestruturem, reduzam custos e fechem algumas instalações improdutivas e desnecessárias para o tamanho de mercado atual. Não há outro caminho, mas surge uma nova situação de toda essa experiência recente: Quem vai conseguir convencer os concessionários sobreviventes, a recompor essas estruturas no futuro? Quando será esse momento? Se após as crises passadas esse tempo de maturação levou mais de 10 anos, agora podemos esperar algo um pouco mais longo, pois as novas gerações de gestores e investidores estão conhecendo a temperatura da água pela primeira vez. Gato escaldado…

Orlando Merluzzi – Abril/2016

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