O que aconteceu com os investimentos chineses que mudariam as relações de mercado no Brasil?

Equívocos e acertos de empreendimentos ambiciosos fora da China

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No final da década passada e início da década atual o Brasil viveu um momento de ouro com as reservas internacionais em expansão, estabilidade econômica e uma onda invasora chinesa em setores específicos, principalmente na extração mineral e geração de energia renovável e fóssil. Apesar da retração da economia a partir de 2013, seguiram-se ainda investimentos em logística, bens de consumo, bancos e agroindústria, mas a febre no setor automotivo quase desapareceu, restringindo-se a poucas empresas com investimento direto chinês e algumas em parceria com bons empresários locais. 

O primeiro movimento da era recente de capital chinês para o Brasil aconteceu em 2009, no valor de US$ 400 milhões com a aquisição de um pedaço da MMX por uma siderúrgica chinesa. A partir daí e até 2016, aproximadamente 70% dos investimentos chineses na América Latina ocorreram no Brasil.

Nos últimos dez anos, de um total de US$ 732 bilhões de capital chinês investidos diretamente na aquisição de negócios ao redor do mundo – excluo desse montante os recursos colocados na construção de fábricas chinesas em outros países – o Brasil recebeu apenas 6,4% do total, sendo praticamente todos os investimentos movimentados entre 2010 e 2016. A América do Norte e Europa atraíram a grande parcela dos investimentos chineses direcionados aos setores de tecnologia, indústria química, automotivo, financeiro e ativos imobiliários. Não posso deixar de mencionar que até algumas vinícolas francesas já pertencem aos chineses, coisa que seria impensável há alguns anos.

Com relação ao Brasil os chineses sofreram um grande susto no setor automotivo, mas na realidade o efeito negativo para eles foi sentido dentro de seus próprios domínios em 2014 e 2015, quando algumas empresas chinesas do setor experimentaram prejuízos pela primeira vez em pouco mais de 15 anos de existência, prejuízos que não foram gerados por operações brasileiras. A reação natural foi “acionar os freios” e reavaliar seus processos e estratégias de expansão além de suas fronteiras.

Ao contrário do que muitos pensam, o maior impacto não ocorreu nos segmentos de carros ou caminhões, mas sim, no setor das máquinas e equipamentos de construção. Entre 2011 e 2014, em toda América Latina entraram mais de 110 diferentes marcas chinesas de equipamentos de construção (sim, mais de 110 marcas distintas). No Brasil foram 73 marcas chinesas diferentes, importadas oficialmente. Muitas vieram para sondar o mercado com importações independentes e volumes pequenos, mas algumas chegaram até a nomear representantes e rede de revendedores, realizando vendas significativas de equipamentos pesados. Das empresas chinesas de máquinas de construção que vieram, apenas 4 permanecem atualmente no País com estrutura e operações de manufatura e distribuição.

É claro que essa grande quantidade de marcas não se sustenta, mesmo em um mercado gigantesco como o chinês e se observa algum movimento de fusões e aquisições, enxugando operações que não conseguem acompanhar a evolução tecnológica, mas tenhamos a certeza de que as que ficarem serão muito competitivas.

Essa primeira grande onda de investimentos chineses no Brasil, no setor automotivo – que na prática se transformou em “marola” – não deverá retornar tão cedo ao País pois o trauma foi grande, parte por planejamento errado ou falta dele, e parte por choques culturais que esbarraram em formas de gestão que não se aplicam por aqui. Contudo, há empreendimentos chineses em parceria com empresários brasileiros que ainda estão seguindo seus planos originais, com um pouco de atraso, mas caminham em direção aos objetivos iniciais.

Entre 2012 e 2015 a desvalorização cambial e a retração do mercado foram golpes duros para os planos chineses no Brasil, mas houve também casos inesperados de embate jurídico e para piorar, as denúncias de corrupção que explodiram nos poderes Executivo e Legislativo do Brasil assustaram a todos por lá. Na China há um sólido programa de combate a corrupção dentro e fora de suas fronteiras e quando confirmado, a família perde seus bens e os envolvidos diretamente no caso sofrem sanções duríssimas que podem resultar até em pena de morte ou prisão perpétua. 

Os chineses enfrentaram aqui muita dificuldade em seus projetos, algumas completamente novas para eles, tais como relações sindicais e greve no início de operação de uma nova fábrica – e não foi por falta de aviso – até as intransponíveis licenças ambientais que dificultam qualquer projeto de construção de uma ferrovia que ligue o Centro Oeste brasileiro ao oceano Pacífico. Barreiras e protestos ambientalistas existem em todo lugar, mas é muito provável que o Canal da Nicarágua, construído por uma empresa chinesa, seja inaugurado bem antes do que o primeiro trecho da ferrovia transoceânica sul-americana.

Os investidores chineses colocam, em primeiro lugar, todo objetivo geoestratégico de Beijing. Assim, foco no controle logístico, extração mineral, geração de energia e produção alimentícia virão sempre na frente de outros investimentos em manufatura “overseas”.

A mudança da matriz econômica na China era algo previsto desde o primeiro discurso do presidente Xi Jinping em 2013 e tudo está correndo como planejado por lá. A China vai voltar a crescer em dois ou três anos e mover novamente a economia global, provavelmente, desta vez, com os EUA também crescendo, o que não ocorreu na década passada quando a China puxou o mundo e os EUA entraram em recessão. Com isso, commodities agrícolas e minerais serão valorizadas de novo e lembro que esses dois conjuntos de produtos representam mais de 52% de toda exportação brasileira. Podemos esperar que a economia do Brasil seja novamente beneficiada por isso e o mercado automotivo, imobiliário e consumo interno em geral, refletirão mais uma vez o bom momento.

Bem, com tudo isso os investimentos chineses que não vingaram por aqui na primeira onda certamente vão retornar, não tão cedo, mas desta vez mais experientes pelos erros cometidos anteriormente, mais adaptados à nossa realidade e com promessas factíveis para um novo mercado.

Orlando Merluzzi

Fonte: OMC, BID, Bloomberg, MA8


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