Momento mágico da economia acabou. Vivemos uma ressaca

Na atual realidade, segundo Mendonça de Barros, ‘crescimento de 3,5% é lucro’

RAQUEL LANDIM – O Estado de S.Paulo (29.07.2012)

Luiz Carlos Mendonça de Barros acredita que o “momento mágico” da economia, vivido na era Lula, acabou. Segundo ele, os fundamentos macroeconômicos continuam bons, mas não existem mais os “motorzinhos auxiliares do crescimento”, como expansão do crédito, incorporação de consumidores e disponibilidade de mão de obra. 

Mendonça de Barros

“Vivemos uma ressaca. Não é o fim de um modelo, mas seu esgotamento. Daqui para frente, o crescimento é de 3,5% no máximo”, disse Mendonção, como é conhecido. “Um crescimento de 3,5% para o Brasil é lucro. Como se dizia antigamente, lambe os beiços.”

Uma das figuras mais influentes do governo Fernando Henrique Cardoso, Mendonça de Barros foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Hoje é sócio da Quest Investimentos. Ele aplaudiu a atitude da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que suspendeu as vendas de celulares por causa da qualidade ruim do serviço. “Se deixar solto, o setor privado faz besteira.” A seguir, trechos da conversa com o Estado.

Por que a economia brasileira cresce pouco?

A melhoria dos termos de troca (relação entre os preços dos produtos exportados e importados), principalmente por causa da demanda chinesa por commodities, trouxe uma estabilidade grande para o setor externo. As contas externas eram o grande calcanhar de Aquiles do governo Fernando Henrique. Tivemos um superávit comercial extraordinário, que permitiu acumulação de reservas e redução do passivo externo. O principal efeito macro foi dar ao real uma confiança que não tínhamos há muito tempo. Para trazer insumos ou produtos acabados de fora, é preciso entrar num contrato de cinco anos, com preços definidos em dólar. Com mais confiança no câmbio, as empresas começaram a ver na importação uma fonte de oferta estável e muito mais barata. E, com mais oferta de produtos baratos, o impacto sobre a inflação é menor. Isso foi fundamental para que o aumento do salário mínimo que o Lula promoveu não acabasse em inflação. Elevar o salário mínimo é uma política tradicional de esquerda e o PT mergulhou nela. No Brasil, esse aumento de demanda foi equilibrado com mais importação. Foi uma manobra arriscada do Lula.

Foi uma manobra calculada ou sorte?

Não acredito que tenha sido calculada. Há várias pessoas que acham que existe um pacto do Lula com Deus. Se esse pacto existe, ele se deu por efeito da China. A combinação de reajuste do salário mínimo, aumento dos termos de troca, estabilidade da moeda e crescimento das importações criou um momento mágico na economia. Em 2006, ajudei o Alckmin (Geraldo Alckmin, governador de São Paulo) no início da campanha (à Presidência). Gosto muito da teoria do general chinês Sun Tzu: para uma batalha – e eleição presidencial é uma batalha – é preciso conhecer a força do inimigo. Preparei para o Alckmin um estudo sobre a força do Lula na eleição. E um item claro foi o crescimento das vendas no varejo, que chegava a 18% no Norte e Nordeste. É um sinal evidente de felicidade do eleitor.

Esse momento mágico da economia brasileira acabou?

Acabou. Havia uma série de forças microeconômicas agindo na mesma direção positiva – os motorzinhos auxiliares do crescimento. O crédito saiu de 22% do PIB para 50%. O desemprego estava em 10%, o que permitiu crescer sem elevar o custo da mão de obra. Tínhamos forças estruturais, mas também conjunturais que se esgotariam em algum momento. É exatamente isso que estamos vivendo agora. Essa transição ficou ainda mais complicada, porque o Lula empurrou o momento mágico com artificialidades até a eleição da Dilma. Hoje vivemos uma ressaca. Não é o fim de um modelo, mas seu esgotamento. Daqui para frente, o crescimento é de 3% a 3,5% no máximo. Só crescemos 5% porque as forças auxiliares empurravam. Hoje o crédito já bateu no limite e a falta de mão de obra segura o crescimento.

Esse patamar de crescimento é suficiente ou o Brasil precisa acelerar mais?

O crescimento depende de dois fatores. Primeiro, uma política macroeconômica equilibrada que não crie distorções. E isso nós temos. Em 18 anos de Plano Real, é outro país. O segundo é a característica do povo. Brinco que as sociedades são divididas em formigas e cigarras. O brasileiro é cigarra: quer viver bem. Nos países asiáticos, as sociedades são de formigas. Em Seul, várias pessoas vivem em apartamentos de 50 metros quadrados. Como a vida é mais dura, a taxa de poupança é maior.

Mas não é preciso elevar a taxa de poupança para aumentar o investimento?

Então muda o povo. O povo está feliz. É só olhar as pesquisas de opinião. Talvez por ter convivido com políticos, aprendi que numa democracia quem manda é o povo. Um crescimento de 3,5% no Brasil é lucro. Como se dizia antigamente, lambe os beiços. Esse é o erro do atual do governo. Ter essa política e prometer 5% de crescimento. Daria para aumentar um pouco se fizesse um ambicioso programa de privatizações. Temos hoje um país que cresce a taxas quase máximas para seu padrão e uma população com melhor qualidade de vida. É por isso que o PT está no governo. Se a Dilma fosse candidata de novo hoje, ganhava novamente. Tem alguma dúvida?

Mas a produção industrial não avança.

Não é um mar de rosas. Nesse novo equilíbrio, começam a aparecer distorções. No Brasil, o sindicato pedia reajuste, o empresário pagava e depois recompunha o lucro subindo preços. Com a abertura da economia, a brincadeira acabou. Hoje não é possível ter uma estrutura de custos no Brasil muito diferente dos países concorrentes. A reação inicial do governo foi culpar o câmbio. Mas não é só o câmbio.

Os empresários seguem reclamando e pedem mais desvalorização do real.

O dólar a R$ 1,60 estava errado. Com o dólar entre R$ 1,60 e R$ 1,85, o empresário tinha razão de reclamar. Mas o pessoal continua reclamando. Foi aí que apareceu outra crítica, que é a estrutura de custo de produção da indústria. E por que a indústria? A indústria é que recebe a competição externa. Não é porque o cabeleireiro custa mais caro aqui do que em Nova York que alguém vai pegar um avião para cortar o cabelo.

O governo tem feito várias medidas setoriais. Alguns dizem que é a maneira de impedir a recessão, outros dizem que cria mais distorções na economia. O que o senhor acha?

No fundo, são as duas coisas. A estimativa de crescimento da Quest para 2012 é 1,5%. Estamos vivendo um ano atípico por várias razões. A mais importante é que cismaram que o mundo vai acabar. Tem gente comprando títulos de 10 anos nos EUA com 1,4% de juros ao ano quando a inflação histórica é de 2%. Tem gente pagando para aplicar dinheiro com os alemães. E isso chegou ao Brasil. O PIB não vai crescer 3,5% porque caiu o investimento. E, se isso é verdade, não é dinheiro do BNDES ou isenção de IPI que vai fazer o empresário voltar a investir.

Como estimular a retomada dos investimentos?

É preciso acabar com a ideia de que o mundo vai acabar. O Brasil tem uma coisa engraçada. O empresário pisou no freio dos investimentos, mas as pessoas seguem consumindo. É evidente que teve uma ressaca de crédito, mas o consumo cresce. Em algum momento o empresário vai perceber que o consumo está correndo à frente de sua capacidade de produção e vai voltar a investir.

A economia brasileira está estagnado por contágio da crise global ou por erros de política econômica?

Pelo contágio global. Até a economia dos Estados Unidos, que estava começando a levantar, caiu. Os economistas dizem que a Europa vai explodir. E a imprensa é pró-cíclica. O empresário se acovarda mesmo. Como acredito que o mundo não vai acabar, o investimento voltará no ano que vem. Não admito essa leitura ideológica de vários economistas de que a economia estagnou por erro da política econômica. Não é. Os erros de política econômica – que são não enfrentar o custo Brasil e não deixar o setor privado ocupar um espaço importante no investimento em infraestrutura – restringem o crescimento em 3,5%.

O governo enfrentou os bancos, as operadoras de planos de saúde, as operadoras de celular. Como o sr. avalia a relação do governo Dilma com a iniciativa privada?

Não existe essa clivagem: o setor público é ruim e o setor privado é Deus. Se deixar solto, o setor privado faz besteira. Estão aí os bancos americanos para provar isso. O setor privado é uma fera que tem que ter controle sobre ela. Vamos avaliar a história das operadoras de celular. Claramente há uma queda de qualidade. Houve expansão muito grande da oferta e o investimento não acompanhou. Está muito certa a Anatel em dar um puxão de orelha nesse pessoal.

As operadoras argumentam que cumpriram as metas da Anatel.

Não estou defendendo um lado, mas, se deixar, o operador privado esmaga o consumidor. Tem que chamar a atenção das operadoras, porque a qualidade caiu muito. Sou consumidor e percebo isso. As operadoras têm como medir qual é o número máximo de celulares por região. Bateu naquele número, é hora de parar. A Anatel deu um susto, as ações das empresas caíram. Agora é preciso chamar as operadoras e redefinir os investimentos. Ninguém esperava que o Brasil tivesse 260 milhões de celulares hoje. As metas da Anatel sumiram, porque o mercado correu muito na frente. É preciso dar um freio de arrumação.

Entrevista concedida ao Estadão por Luiz Carlos Mendonça de Barros, uma das mentes mais brilhantes que o Brasil possui na área econômica. Uma análise verdadeira e sem reservas, que deveria ser cravada em mármore e colocada em cada uma das escolas de economia desse País. Eu tenho a satisfação de conviver um pouco com Luiz Carlos e posso afirmar que 15 minutos de “prosa” com ele, valem mais do que muitas aulas nas melhores universidades do mundo.  Orlando Merluzzi

 

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